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Salvemos todas as mulheres

A escalada da violência contra as mulheres e dos feminicídios é uma certeza, medida em números e casos. Merece atenção real, muito mais que posts nas redes, que ajudam a dar visibilidade ao problema e formar opinião, mas não dão conta de transformar a conduta criminosa de homens, tampouco de evitá-la

2026 promete emoções fortes. Pede também pulsos fortes. Não faltarão momentos para testá-los e ver o quão seremos capazes de segurar ímpetos e focar no que realmente importa. Teremos eleições majoritárias, talvez uma das mais importantes dos últimos tempos. Mas, a despeito do nosso encontro democrático, precisamos firmar compromissos que extrapolam momentos simbólicos da nação e se transformam em luta perene, multipartidária, sem ideologismo ou apaixonamento que comprometam a união por direitos fundamentais. Um desses compromissos essenciais é com a vida das mulheres.

A escalada da violência contra as mulheres e dos feminicídios é uma certeza, medida em números e casos. Merece atenção real, muito mais que posts nas redes, que ajudam a dar visibilidade ao problema e formar opinião, mas não dão conta de transformar a conduta criminosa de homens, tampouco de evitá-la. Por isso, precisamos debater cara a cara, abrir caminhos em conjunto, pensar em soluções estruturais e em mais mecanismos de proteção.

O presidente Lula sancionou a lei que cria o Dia Nacional de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio, o 17 de outubro, dia em que Eloá Pimentel foi assassinada pelo ex-namorado, em 2008, após dias de cárcere privado. Prometeu um grande esforço nacional e falou em "compromisso de alma". Cobraremos.

Esse não é nem deve ser um esforço isolado de governo, nem mesmo de Estado. Mas de toda a sociedade, sobretudo de homens. O Correio Braziliense é parte comprometida. Mais uma vez abrimos espaço para promover diálogo a respeito dessa chaga tão dolorosa, epidêmica e endêmica, que é a matança indiscriminada de mulheres e toda a sorte de violência cruel imposta a mais da metade da população brasileira. No próximo 27 de janeiro, a partir das 9h, ocorrerá mais uma edição do CB.Debate, que terá como tema Pela proteção das mulheres: um compromisso de todos.

A ideia é justamente discutir caminhos e soluções no enfrentamento à violência contra a mulher. O evento será realizado no auditório do jornal, localizado no Setor de Indústrias Gráficas (SIG), com transmissão ao vivo pelas redes sociais e YouTube. A inscrição para participar presencialmente pode ser feita pela plataforma Sympla. Outros virão no decorrer do ano.

Entre os painelistas confirmados estão a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva; a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovações, Luciana Santos; a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão; a ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Daniela Teixeira; a ministra-substituta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Vera Lúcia Santana Araújo; a reitora da Universidade de Brasília (UnB), Rozana Reigota Naves; a secretária- executiva do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa Rodrigues; a professora associada da Faculdade de Direito da UnB Janaína Lima Penalva; e Victor dos Santos Valadares, psicólogo do Espaço Acolher Samambaia, que trabalha com homens agressores. Outras presenças importantes serão confirmadas nos próximos dias.

Combater a violência contra a mulher é estar em permanente luta, em vigília, para trabalhar a prevenção sobretudo. Já choramos tantas mortes, vimos tantas atrocidades, e não conseguimos conter a barbárie. A educação, a conscientização e a punição andam de mãos dadas. Precisamos de pessoas em cada uma dessas instâncias. Precisamos de gente disposta a romper barreiras clássicas, como a não intervenção em brigas de marido e mulher. E de cada vez mais mulheres que apoiem umas às outras. E de homens que saiam da defensiva ("ah, mas nem todo homem é assim") e partam para o bom combate, entendendo sua condição de privilégio e de cúmplice ao proteger amigos que perpetuam o machismo, seja na mesa de bar, no campo de futebol, seja dentro de casa. 

Não é apenas o louco, o drogado, o bêbado, o desajustado, o doente que mata. É o homem comum, boa pessoa, cidadão de bem, que paga impostos e vai ao trabalho todo dia. Aquele que acreditamos jamais ter coragem de cometer uma barbárie. Nosso convite é olhar para essa realidade sem filtros, entendê-la e trabalhar para mudá-la. É uma batalha das mais difíceis. Mas estamos aqui para vencê-la e deixar para nossas netas e bisnetas a herança de viver sem medo. Conto com você e te espero no dia 27.  

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