ARTIGO

A ofensiva de Trump contra a educação e a questão dos diplomas profissionais

Se depender de Trump e dos políticos que nele se inspiram, o diploma terá cada vez menos relevância. Nesse processo, não apenas a educação sofre, mas profissões essenciais são colocadas em risco.

Ricardo Luigi, Geógrafo e internacionalista, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

Utilizando-se da "teoria do louco", lógica segundo a qual decisões abruptas e imprevisíveis ampliam o espaço de ação política, o governo Trump tem tomado medidas inesperadas na área de educação. Uma das mais recentes é a dispensa do diploma para o exercício de profissões tradicionalmente regulamentadas.

Segundo a imprensa norte-americana, as profissões que não irão mais necessitar de diploma para o seu exercício profissional são: enfermagem, assistência médica, fisioterapia, audiologia, arquitetura, contabilidade, educação e assistência social. A indefinição sobre quais profissões serão de fato atingidas é parte da retórica trumpista: testar os limites da sociedade para mensurar as possibilidades de atuação.

As ações do governo Trump seguem o que se conhece como teoria do louco (madman theory, em inglês), termo cunhado pelo presidente americano Richard Nixon (1969-1974) no contexto da Guerra do Vietnã. A ideia é surpreender os adversários, que deveriam, por esse motivo, pensar duas vezes antes de mexer com os Estados Unidos, por não conseguirem prever qual seria a reação do governo americano. Trump utiliza-se desse paradigma não só na sua política externa, como também nas ações internas, sob uma lógica de guerra cultural.

A cruzada de guerra cultural do presidente Trump tem como alvo o que ele chama de agenda "antiwoke", atacando a conscientização sobre desigualdade social e sobre discriminações. Nesse pacote, o trumpismo ataca os direitos da DEI (diversidade, equidade e inclusão), da comunidade LGBTQ , imigrantes, americanos naturalizados e a questão racial. Na lógica de guerra interna de Trump, ele encampa o que chama de "agenda da direita", contra o que ele denomina como medidas "discriminatórias", "antiamericanas" e "motivadas por uma agenda de extrema-esquerda".

A ofensiva de Trump contra a educação ocorre em um momento crítico para o ensino superior nos Estados Unidos: desde 2008, mais de 300 instituições fecharam, devido à queda no número de estudantes e à crise no financiamento. Em 2024, o ritmo de encerramentos se acelerou a ponto de quase uma universidade fechar por semana. Reduzir a importância de diplomas profissionais só tende a agravar esse cenário, já que as carreiras que não necessitam de diploma possuem menor acesso a financiamentos estudantis.

Essas mudanças estão vinculadas a um pacote de políticas tributárias e orçamentárias chamado One Big Beautiful Bill (OBBBA), "a grande e bela lei", um grande conjunto de políticas tributárias e orçamentárias que visam cortes de gastos, em geral, para o aumento de gastos federais em defesa. Em resumo, busca-se o aumento do orçamento militar.

Nesse contexto bélico, a educação se tornou alvo. O Departamento de Educação tem sofrido com demissões em massa e com transferência de funções. Como exemplo trágico, o programa de financiamento à educação de crianças de famílias de baixa renda, de migrantes e de jovens negligenciados ou em situação de risco será transferido para o Departamento do Trabalho.

As medidas de Trump para a educação revelam uma visão de mundo utilitarista, anticientífica, contra políticas inclusivas e negacionista. Isso se expressa no corte ou congelamento do financiamento a pesquisas sobre mudanças climáticas e sobre vacinas, e nas medidas tomadas contra iniciativas de diversidade, de equidade e de inclusão. O posicionamento ideológico no campo da educação é coerente com a sua abordagem da política internacional.

A doutrina Trump, centrada no nacional-populismo, recusa o multilateralismo e projeta o poder militar dos Estados Unidos como eixo de hegemonia global. O governo trumpista, seguindo a aparente contradição da "teoria do louco", ao mesmo tempo que recusa a ordem global liberalizante, promove uma nova aliança em torno de seus interesses imediatos, o que vem sendo chamado por alguns de "aliança global da direita radical".

Esse mesmo conjunto de princípios tem repercussões na educação. Se depender de Trump e dos políticos que nele se inspiram, o diploma terá cada vez menos relevância. Nesse processo, não apenas a educação sofre, mas profissões essenciais são colocadas em risco. O ataque ao diploma não é apenas um ataque às universidades: é um ataque à qualidade de serviços que são essenciais para a população.

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