ARTIGO

Reflexões sobre a natureza e o uso da inteligência artificial

Vidrados na tecnologia, experienciamos um certo esvaziamento mental, pois não mais valorizamos o desenvolvimento das nossas habilidades e não medimos as consequências desse estado de coisas

Cilene Rodrigues professora e Pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio do Janeiro  e do Instituto de Matemática Pura e Aplicada e Tecnologias (Impa Tech); Rafael Beraldo pós-doc da Universidade Estadual de Campinas  e professor do Impa Tech; Kaio Costagraduando do Impa Tech

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Desde sua criação, a inteligência artificial (IA) teve dois grandes picos de audiência. O primeiro em 1997, quando o autômato Deep Blue, produzido pela IBM, derrotou o então campeão mundial Garry Kasparov, no jogo de xadrez, e, atualmente, somos bombardeados por propagandas de uso de IAs em tarefas cognitivas. Como consequência, delegamos produção de textos, resolução de problemas matemáticos, criações artísticas e até julgamentos sobre as fronteiras entre real e irreal, ético e antiético, para esses autômatos. Essa condição fomenta e é fomentada pelo entendimento de que a inteligência artificial ultrapassa a inteligência orgânica no que tange à competência e ao desempenho mental, justificando seu uso em larga escala nas diversas esferas da vida social e individual. Vidrados na tecnologia, experienciamos um certo esvaziamento mental, pois não mais valorizamos o desenvolvimento das nossas habilidades e não medimos as consequências desse estado de coisas.  

Luiz Von Ahn, fundador e CEO do aplicativo Duolingo, declarou recentemente que as IAs são melhores professores que os seres humanos no ensino de línguas.  Declarações como essa excitam o processo de transhumanismo que não vem acompanhado de garantias.  Estamos preparados para lidar com as elevadas taxas de desemprego que a substituição almejada nos trará? Ainda, a ética do trabalho não versa apenas sobre a relação entre emprego e remuneração financeira, mas também sobre o bem-estar físico e mental que nossas atividades ocupacionais nos proporcionam. O trabalho é um dos pilares da valorização pessoal e social do indivíduo, um dos propósitos fundamentais da nossa existência. Não há futuro para uma sociedade repleta de profissionais inanes, anulados em suas habilidades e desprovidos das condições necessárias para manutenção de seus entes. As empresas vendem a ideia de que as IAs definem o futuro, mas a pergunta é:  de que futuro estamos falando? 

Obviamente o desenvolvimento dessas tecnologias trará grandes benefícios, pois são bem mais rápidas e podem potencialmente ser mais eficazes na análise de volumes exorbitantes de dados, fazendo emergir padrões e generalizações que escapam à cognição humana. Mas isso não quer dizer que elas nos ultrapassam cognitivamente, podendo nos substituir sem danos para nossa espécie. É preciso ter em mente que velocidade e quantidade nem sempre estão pareados com qualidade. 

Voltemos ao jogo de xadrez. Alan Turing, o pai da ciência de computação, era um bom enxadrista e, ainda nos anos de 1950, criou o primeiro código para automatização do xadrez. De lá para cá, autômatos foram se aperfeiçoando na arte desse jogo, mas o esforço foi de seus criadores. Foram necessárias enormes quantidades de dados de exposição, diversas avaliações de parâmetros e etapas de treino para que Deep Blue vencesse Kasparov. Há, ainda, um outro fator que decidiu o resultado da partida em 1997: a baixa flexibilidade contextual do xadrez. Não há ajustes pragmáticos nesse jogo, as regras não se ajustam aos contextos das partidas e às necessidades dos competidores. Isso garante o sucesso das estratégias tecidas pelos jogadores ao analisarem passo a passo a posição das peças no tabuleiro.

Nisso, a linguagem humana se diferencia bem do xadrez. Embora a gramática seja um sistema combinatorial regrado, o uso que fazemos da linguagem é bastante dinâmico. O bom falante se adapta com naturalidade às necessidades de seu interlocutor, fazendo concessões em prol do sucesso comunicativo. Essa habilidade adaptativa é um argumento contra a declaração de Luiz Von Ahn. As IAs não são melhores do que nós no ensino de línguas, pois elas não lidam tão bem quanto nós com o inesperado linguístico. Elas também não são inteligências gerativas como nós. Como afirma a filósofa Anna Soy Ribeiro, da Universidade do Texas, na linguagem, os humanos avançam em direção ao futuro, adaptando-se, modificando e inovando em léxico e regras gramaticais, vão criando dialetos e, consequentemente, novas línguas. Em contraposição, as IAs alimentam-se do passado, dos dados que nós disponibilizamos na internet.  Nesse contexto, cabe também avaliar que dialeto é uma marca linguística que confere pertencimento e identidade social ao falante, e estudos indicam que ela aumenta a confiabilidade e a lealdade entre as pessoas. As IAs podem imitar por emulação qualquer dialeto, mas não têm pertencimento nem identidade linguística. Não é bom automatizar a crença de que falante perfeito é falante livre de sotaque, sem marcas dialetais. 

Em conclusão, o impulso que essa onda de automatização do conhecimento está nos dando pode nos acelerar para o futuro se usada adequadamente, ou nos travar, tornando-se ironicamente o temido grande filtro de bloqueio à evolução da inteligência.

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