
Anderson Gomes, Físico, diretor do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), membro titular da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A do CNPq
Quando se fala em geolocalização, é comum associar o tema ao GPS. De fato, o sistema norte-americano é o mais conhecido e difundido no mundo. Mas o Posicionamento, Navegação e Tempo (PNT) vai muito além do GPS: trata-se de uma infraestrutura essencial que sustenta desde a agricultura de precisão e o transporte aéreo até as operações financeiras e as redes de telecomunicações.
Os sistemas globais de navegação por satélite (GNSS, na sigla em inglês), como o GPS, o Galileo europeu, o BeiDou chinês e o Glonass russo, constituem os principais sistemas PNT baseados no segmento espacial e formam a base dessa infraestrutura. Juntos, alicerçam uma economia de escala global e estão presentes em incontáveis dispositivos. Estima-se que cerca de 9 bilhões de smartphones em uso no mundo possuem chips GNSS, movimentando um mercado anual de cerca de US$ 115 bilhões.
Esses números revelam a dimensão econômica e tecnológica de uma infraestrutura indispensável ao cotidiano global. Apenas o Galileo, por exemplo, deve gerar 166 bilhões de euros até 2029 em serviços de alto valor agregado, segundo a Agência da União Europeia para o Programa Espacial (Euspa). Contudo, todos esses sistemas são controlados por grandes potências e refletem os seus interesses estratégicos.
O Brasil, como a maioria das nações, ainda é usuário dependente dos sistemas GNSS. Essa dependência tecnológica traz riscos: falhas ou interrupções nos sinais podem comprometer setores críticos para a sociedade brasileira. Basta lembrar que a nossa agricultura, responsável por mais de 320 milhões de toneladas anuais de produção, depende de forma crescente do PNT para manter a sua eficiência e produtividade.
No contexto nacional, o PNT já se consolidou como requisito essencial para uma ampla gama de setores, incluindo logística, construção, defesa, agricultura de precisão e infraestrutura nacionais. Os sistemas de PNT afetam, direta ou indiretamente, cerca de 8% do PIB brasileiro, podendo gerar impacto moderado sobre aproximadamente 24% do PIB, quando se consideram os serviços de transporte de carga. Esses números reforçam a importância de o país avançar no desenvolvimento de tecnologias próprias, capazes de reduzir a dependência de sistemas de outros países e aumentar a resiliência de suas operações estratégicas.
Para enfrentar esse desafio, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), por meio do seu Observatório de Tecnologias Espaciais (OTE), propôs o desenvolvimento de um sistema brasileiro de PNT. A iniciativa busca criar uma solução com cobertura regional, projetada para atender às necessidades específicas do território brasileiro e da América do Sul. A ideia é explorar satélites em órbita baixa (LEO), que oferecem sinais mais fortes, maior resiliência a interferências e custos reduzidos, em comparação com os sistemas tradicionais em órbita média (MEO). A proposta acompanha os esforços mundiais de pesquisa e responde a uma lacuna estratégica identificada pelo Centro há um ano, quando a instituição iniciou os seus trabalhos nesse tema.
A iniciativa foi apresentada ao Grupo de Trabalho interministerial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, que discute uma estratégia nacional para o setor. O trabalho do CGEE ganhou força, recentemente, com o apoio e o financiamento da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Por meio da parceria, estão sendo conduzidos estudos para aprofundar o desenvolvimento da tecnologia.
A construção de um "GPS brasileiro" não significa simplesmente replicar o modelo norte-americano, mas desenvolver uma solução adaptada às nossas necessidades, capaz de ampliar a autonomia nacional em um setor estratégico. Trata-se de uma questão de soberania tecnológica: garantir que o país não dependa exclusivamente de sistemas estrangeiros para funções sensíveis de sua economia e de sua segurança.
O desafio é grande, mas a oportunidade, também. O Brasil pode deixar de ser apenas usuário e se tornar protagonista no desenvolvimento de uma infraestrutura que molda o presente e definirá o futuro.

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