André Araujo — professor da pós-graduação em política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP); Alexandre Coelho — professor e coordenador dos cursos de política e relações internacionais e do MBA em geopolítica da transição energética, ambos da FESPSP
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Após mais de duas décadas de negociação, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia (UE) foi assinado em 17 de janeiro deste ano. O ato encerra um longo processo iniciado nos anos de 1990, mas também inaugura uma etapa decisiva que dependerá das políticas domésticas e da conjuntura internacional.
Para entender esse percurso, é preciso lembrar que o Mercosul nasceu em um momento de globalização acelerada e hegemonia norte-americana pós-Guerra Fria. A proposta da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), com reticências por alguns membros do Mercosul, reforçou a busca de alternativas à dependência dos Estados Unidos, enquanto a União Europeia via vantagem em ampliar sua presença econômica na América do Sul, para não perder o mercado para os EUA. É nesse ambiente que surgiram as primeiras tentativas de acordo.
Com o passar dos anos, crises internas na Europa e no Mercosul, além da oscilação da influência norte-americana e da ascensão da China, afetaram o ritmo das negociações. O anúncio da conclusão em 2019 não avançou por divergências ambientais e políticas com o governo brasileiro da época, o que adiou a assinatura por mais seis anos.
Mesmo assim, o cenário internacional mudou e favoreceu a reaproximação. Em um ambiente de instabilidade devido à deterioração do multilateralismo, a institucionalidade garantida por tratados pode assegurar transparência e previsibilidade.
Ainda assim, não houve consenso pleno. Setores agrícolas europeus mantiveram forte resistência, temendo a concorrência de produtos sul-americanos mais baratos e com padrões sanitários diferentes. Esse ponto esteve presente nos votos contrários de Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia no Conselho da União Europeia. Do outro lado, indústrias do Mercosul apontaram risco de assimetria diante da entrada de bens industrializados europeus com maior valor agregado, o que pode pressionar segmentos tecnológicos sensíveis.
Essas divergências projetam-se para a etapa seguinte, pois a assinatura não produz efeitos imediatos. O texto negociado será enviado aos Legislativos de cada país. Nessa etapa, podem surgir divergências entre os partidos políticos, que refletem pressões de setores domésticos, tanto favoráveis quanto contrários. Não se espera, contudo, que a negociação seja reaberta para alterar tarifas ou regras de propriedade intelectual, por exemplo. Ademais, o acordo foi estruturado em dois instrumentos — um comercial e outro de cooperação política — o que permite que um entre em vigor mesmo se o outro enfrentar atrasos.
No âmbito europeu, a ratificação pode ser mais complicada. Tanto na etapa junto aos parlamentos nacionais, que sofrerão pressão de diversos grupos de interesse contrários ao acordo de livre comércio, quanto na etapa regional. A moção aprovada pelo Parlamento Europeu, nesta quarta-feira, dia 21 de janeiro, para que o Tribunal de Justiça da União Europeia avalie a conformidade do texto assinado indica que há um expressivo grupo com poder decisório para se opor à parceria com o bloco sul-americano.
Por outro lado, do ponto de vista do Mercosul, a aprovação legislativa tende a ser menos conflitiva. Nos últimos 20 anos, o bloco firmou parcerias extrarregionais com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), Egito, Índia, Israel, Palestina, Singapura e União Aduaneira da África Austral. Apesar de alguns ainda não terem sido ratificados por todos os membros do Mercosul, não há registro de rejeição pelos parlamentos nacionais. Assim, a probabilidade de aprovação é muito alta, mas a variável decisiva é o tempo de tramitação.
Há também um componente geopolítico pouco mencionado, mas central para explicar por que o acordo foi assinado agora. A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em 2025, reacendeu uma política exterior mais transacional e pressionou a Europa a ampliar margens de autonomia econômica. Ao priorizar tarifas, renegociar compromissos e agir de forma assertiva em áreas sensíveis — como a disputa pela Groenlândia, rica em minerais estratégicos —, Washington elevou o custo de inação para a União Europeia. Quanto mais a Europa se vê pressionada por seu principal aliado atlântico, mais racional se torna buscar parceiros comerciais estáveis fora do eixo EUA-Ásia. Paradoxalmente, a ofensiva diplomática e econômica de Trump acabou funcionando como impulso para destravar a assinatura do acordo com o Mercosul, ao reduzir resistências internas na UE e favorecer sua lógica de aprovação.
Por fim, a conclusão do acordo com a União Europeia produz um interesse renovado no restante da agenda externa do Mercosul — que é consenso mínimo encontrado entre seus membros ao longo de mais de uma década de indefinições que afetaram o arranjo regional. Os principais acordos que vêm sendo negociados são com Emirados Árabes Unidos, Canadá e Coreia do Sul, além de outros que estão em diferentes estágios de negociação. Dessa maneira, a rede comercial na qual o Mercosul se insere pode ser ampliada no futuro, apesar da fragmentação do sistema internacional.
