Viviane Fontoura — professora e tradutora
Em 1985, Woody Allen dirigiu uma pequena obra-prima intitulada A rosa púrpura do Cairo. Ambientado em Nova Jérsei, em plena época da Grande Depressão, conta a história de Cecilia, uma garçonete presa em um casamento abusivo e um trabalho extenuante. Para fugir da rotina, assiste repetidamente ao mesmo filme — e, de tanto "vê-la" na plateia, o protagonista se apaixona por ela e abandona seu papel, saltando da tela para o mundo real. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que assisti ao longa, ainda adolescente, e de como vi em Cecilia um espelho de mim mesma: naquela época, eu ia ao cinema quase que diariamente, muitas vezes assistindo ao mesmo filme em sessões seguidas.
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Muito tem se falado — e escrito — sobre como O agente secreto é uma ode ao Recife, e sobre como as ruas, praças e vielas do centro da capital pernambucana agem como catalisadores da história. Minha amiga Sibele, editora neste jornal, afirmou há alguns dias que o personagem principal do filme é, na verdade, o Recife. E apesar de concordar com ela, permitam-me um pitaco, como se diz em bom "recifês": o Recife pode ser o protagonista, mas o Cinema São Luiz é o coadjuvante — e, como acontece frequentemente, rouba a cena em vários momentos. Inaugurado em 1952 e hoje tombado pelo Patrimônio Histórico de Pernambuco, é uma das salas de exibição mais belas do mundo e parte da memória afetiva do diretor Kleber Mendonça Filho (e da minha, também). Minha primeira sessão de cinema no Recife foi no São Luiz - Império do Sol, de Steven Spielberg, que assisti ao lado de Kleber e outros amigos queridos da nossa turma da faculdade.
Salas de cinema são espaços de memória e de afeto. Em Retratos fantasmas, Kleber comenta que podem ser "espaços de gentileza". Em O agente secreto, Seu Alexandre, o projecionista do São Luiz, cujo amor pelos filmes e o jeito carinhoso me fizeram lembrar do maravilhoso Alfredo de Cinema Paradiso, personifica essa gentileza, tão comum na filmografia do realizador: é a figura paterna sempre presente em um filme onde a ausência da(s) mãe(s) ecoa o tempo todo, principalmente no terço final. É no São Luiz que Marcelo/Armando busca refúgio e um sopro de esperança; é também onde encontra um alívio momentâneo em meio à tensão em que vive — seja rindo das situações cômicas que Seu Alexandre diz serem comuns, seja saindo pela porta lateral do cinema para dar de cara com um bloco de carnaval — e cair na folia.
Não por acaso, assisti ao O agente secreto pela primeira vez no cinema Trindade. Parece-me adequado que tenha sido assim, já que o Trindade e o São Luiz têm trajetórias muito semelhantes, e há algo de poético em ver a tela de um projetada na do outro. Localizado no coração da cidade do Porto, onde vivo há 10 anos, é um cinema de rua com duas pequenas salas, que insiste em sobreviver em meio à concorrência quase invencível dos multiplexes e que se tornou praticamente a minha segunda casa por aqui. Sim, continuo a ser uma cinéfila compulsiva — embora já não consiga ir todos os dias ver um filme, e dobrar uma sessão seja coisa do passado.
Pouco antes de vir para Portugal, fui ao São Luiz para ver uma sessão dupla especial de Aquarius, então recém-lançado, e O som ao redor, primeiro longa de Kleber (e que ocupa um lugar especial no meu coração). Na saída, nos encontramos rapidamente e eu disse a ele que era bonito ver os títulos dos seus filmes na marquise do mesmo cinema onde vimos juntos obras de tantos outros diretores que aprendi a amar com ele. Mal imaginávamos que, alguns anos depois, estaríamos de volta ao mesmo saguão para rodar O agente secreto. Lembram que falei de afetos e gentilezas? Nos últimos anos, os filmes de Kleber têm sido o motivo principal das reuniões da nossa turma, como nas premières de Bacurau e Retratos fantasmas. Mas, em julho de 2024, quando por uma dessas manobras do destino estávamos quase todos no Recife, ele nos convidou para participar da filmagem como figurantes.
Vou levar comigo para o resto da vida as lembranças daqueles dias. Os figurinos dos anos 70; a reconstituição de época que me fez achar que havia entrado num DeLorean e voltado no tempo; Wagner Moura, um monstro de ator, a caminhar pelo set; esbarrar com Udo Kier no corredor do cinema; observar, de perto, como um filme é feito — e como a mágica pode acontecer bem diante dos nossos olhos. O que mais aquela menina que amava (e ainda ama) filmes poderia querer? Ah, sim. Talvez um Oscar!
