ARTIGO

Eleições: mais que nomes, o Brasil precisa de um plano

A ausência de um projeto nacional consistente cobrou seu preço: crescimento baixo, renda estagnada e desigualdades persistentes.

Alfredo Cotait Neto presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB)

O Brasil cresceu pouco e cresceu mal nas últimas décadas. Mesmo em períodos de relativa estabilidade macroeconômica, o país foi incapaz de transformar crescimento em melhoria consistente da qualidade de vida da população. Enquanto outras nações avançaram ao articular produtividade, educação, investimento e inovação, o Brasil se acomodou em um modelo que priorizou a estabilidade nominal como fim em si mesmo, sem enfrentar seus entraves estruturais mais profundos.

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O contraste internacional é evidente. Coreia do Sul, Vietnã, China, Indonésia e Índia seguiram trajetórias distintas entre si, respeitando suas realidades políticas, sociais e culturais, mas com um ponto comum: todos trataram crescimento econômico, investimento produtivo e transformação estrutural como objetivos explícitos de Estado. Esses países entenderam que desenvolvimento não acontece por inércia nem como efeito colateral da estabilidade, mas exige planejamento, coordenação e escolhas claras em prol do desenvolvimento econômico, mas, principalmente, social. Compreenderam que a verdadeira riqueza de uma nação está na sua capacidade de produzir, inovar e gerar oportunidades para sua população. É preciso ter claro que quem produz é quem sustenta a economia do país. 

No Brasil, ao contrário, o desenvolvimento passou a ser tratado como secundário, quase acidental. A política econômica concentrou-se em controlar variáveis de curto prazo, enquanto temas como produtividade, formação de capital humano, segurança e modernização da estrutura produtiva ficaram em segundo plano. A ausência de um projeto nacional consistente cobrou seu preço: crescimento baixo, renda estagnada e desigualdades persistentes.

Esse desequilíbrio aparece com clareza na área social. Houve avanços importantes no acesso à educação, especialmente nas últimas décadas, mas o país fracassou de forma recorrente na qualidade do ensino. A formação oferecida é insuficiente para preparar cidadãos para o mundo do trabalho, elevar a produtividade e sustentar uma economia mais moderna e competitiva. Sem educação de qualidade, não há inclusão social duradoura, nem melhora consistente em saúde e segurança pública. O resultado é um ciclo vicioso em que baixa escolaridade, baixa renda e vulnerabilidade social se retroalimentam.

A falta de crescimento estruturado também limita a capacidade do Estado de investir onde mais importa. Juros persistentemente elevados drenam recursos públicos que poderiam ser direcionados à educação, à segurança, à infraestrutura social e à geração de emprego e renda. Estabilidade é necessária, mas não pode ser um fim em si mesma quando convive com serviços públicos frágeis, desigualdades profundas e baixa mobilidade social.

Com a taxa básica de juros mantida em nível elevado ao longo de 2026, girando em torno de 12% até o fim do ano, o ambiente de negócios segue pressionado. Na prática, os juros altos reduzem consumo e investimentos, desaceleram a atividade econômica e tornam o capital de giro mais caro. Esse cenário afeta de forma ainda mais intensa as micro e pequenas empresas, que dependem mais de financiamento, têm menos garantias e enfrentam custos financeiros proporcionalmente maiores, comprometendo a geração de empregos e renda.

Além disso, tratar o controle da inflação como objetivo isolado ignora problemas estruturais do país, como baixa produtividade, desigualdade regional e carências históricas nas políticas sociais. O resultado é um país formalmente estável, mas socialmente vulnerável, em que milhões de brasileiros permanecem à margem das oportunidades econômicas.

O Brasil precisa repensar seu modelo de desenvolvimento. A política econômica deve estar integrada a um projeto que coloque as pessoas no centro das decisões, que transforme estabilidade em bem-estar e crescimento em qualidade de vida. 

Mais do que discutir nomes ou governos, o país precisa de um plano. Um plano que articule crescimento econômico com desenvolvimento social, educação de qualidade e segurança pública eficiente — porque, no fim, a verdadeira riqueza de uma nação está na sua capacidade de produzir.

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