SEGURANÇA PÚBLICA

Rede de Vizinhos Protegidos é fundamental no combate à insegurança na Asa Norte

Muito além de mensagens, a Rede Vizinhos Protegidos supre lacunas da imprensa e do Estado, fortalece a segurança comunitária e o direito à informação, mas corre o risco de perder a razão de existir se for submetida a práticas de censura ou a critérios arbitrários de moderação

Em um intervalo um pouco maior que cinco horas, duas ocorrências policiais separadas por menos de 400 metros de distância ilustram bem o clima de insegurança que os moradores da Asa Norte vivem, tema que tenho abordado com frequência neste espaço. Na madrugada passada, pouco depois da meia-noite, ladrões tentaram roubar um carro nas proximidades do bloco D da 404 Norte. Em meio aos pedidos de socorro da vítima, uma senhora, vizinhos desceram do prédio, o que fez o suspeito sair em disparada em direção ao comércio.

Perto dali, entre os blocos M e N da 403 Norte, os primeiros raios solares começavam a aparecer quando os moradores foram acordados com "ladrão". Três homens, armados com pelo menos um facão, quebravam o vidro de um dos veículos estacionados. Em seguida, saíram correndo em direção às quadras 200, não sem antes arrombarem mais um carro estacionado, desta vez nas proximidades do bloco B. Em ambos os casos, as ocorrências policiais foram narradas em detalhes, em tempo real, pelos moradores nos grupos de WhatsApp da Rede de Vizinhos Protegidos (RVP), uma iniciativa do 3º Batalhão da PM que veio para facilitar o contato da população com as forças de segurança. Os bandidos acabaram presos.

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A sequência de episódios relatados acima ajuda a compreender por que a RVP se tornou um instrumento central no cotidiano da Asa Norte. Mais do que um grupo de mensagens, trata-se de um reflexo direto do avanço das formas de comunicação numa sociedade cada vez mais conectada, instantânea e dependente da circulação rápida de informações. A Rede de Vizinhos Protegidos fortalece a segurança comunitária e o direito à informação.

É inegável que grupos de WhatsApp, como os da RVP, cumprem hoje um papel que antes dependia exclusivamente da imprensa ou de canais oficiais. Nem toda ocorrência policial vira notícia, nem todo registro chega ao conhecimento público por meios institucionais. Ao compartilhar relatos em tempo real, moradores passam a saber o que ocorre ao redor das casas, ajustam rotinas, redobram cuidados e, em muitos casos, colaboram diretamente com o trabalho policial. Informação é também uma ferramenta de prevenção.

Por isso, acende um sinal de alerta a prática de apagar mensagens de moradores sob o argumento de "organização". A moderação, quando necessária, deve estar sob responsabilidade de policiais, profissionais treinados para lidar com conflito, tensão e informação sensível, e não de civis que, ainda que bem-intencionados, acabam impondo visões pessoais sobre o que deve ou não circular. A RVP nasceu como uma ponte entre população e forças de segurança. Transformá-la em um espaço tutelado por juízos subjetivos é distorcê-la.

Esse debate ganha contornos ainda mais relevantes neste momento de crescimento da sensação de insegurança na Asa Norte. Ainda que as forças de segurança enfatizem a queda de índices de violência, a percepção cotidiana dos moradores conta outra história — e percepção também é dado político. Não por acaso, a violência urbana tende a ocupar lugar central na próxima campanha eleitoral. Assusta, mobiliza e influencia escolhas. Tanto que ontem o GDF anunciou a operação Força Total para aumentar o policiamento na região nos próximos 30 dias. Vamos acompanhar!

 

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