OSCAR 2026

Cinema nacional vira arma contra o autoritarismo no palco global

Em tempos marcados pela ascensão do autoritarismo e pelo avanço da extrema-direita, narrativas que resgatam a memória, denunciam a violência de Estado e reafirmam valores democráticos ganham ressonância. Filmes assumidamente antiautoritários, como os brasileiros agora celebrados, dialogam com inquietações globais. Não falam apenas do passado nacional, mas o temor de um presente compartilhado

Cena de
Cena de "O agente secreto" gravada em Brasília: cinema brasileiro está, mais uma vez, firme na disputa pelo Oscar - (crédito: Reprodução/Kleber Mendonça Filho )

Em uma semana recheada de notícias impactantes, como a liquidação de mais um banco, os desdobramentos do caso Master, a discussão em torno da ocupação da Groenlândia e a repercussão nas redes sociais da caminhada do deputado federal Nikolas Ferreira até Brasília, a menção especial fica mais uma vez para o cinema nacional. O recorde de cinco indicações ao Oscar, quatro de O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, e uma de Sonhos de trem, que Adolpho Veloso como diretor de fotografia, merece e precisa ser reverenciado.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

O excelente momento vivido pelo cinema brasileiro não é fruto do acaso nem de um talento recém-descoberto. Trata-se, antes de tudo, do reconhecimento tardio de uma tradição sólida, criativa e diversa, que sempre existiu, mas que raramente encontrou condições políticas, econômicas e simbólicas tão favoráveis para ganhar projeção global. Pela primeira vez, o país emplaca, por dois anos consecutivos, indicações nas categorias de Melhor filme e Melhor filme internacional. É um feito que consolida uma virada histórica.

O Brasil sempre produziu grandes filmes e revelou talentos. O que muda agora é o contexto. Há uma conjunção rara de fatores, como festivais atentos ao Sul Global, um sentimento coletivo de valorização e, sobretudo, plataformas ávidas por novas narrativas. Nesse cenário, o impacto de O agente secreto e de Ainda estou aqui vai além das estatuetas. O sucesso crítico e institucional das obras tende a abrir portas, com mais investimento, coproduções internacionais, circulação em salas e festivais, além de maior confiança para que novos projetos saiam do papel.

Há ainda um elemento decisivo no ambiente internacional. Em tempos marcados pela ascensão do autoritarismo e pelo avanço da extrema-direita, narrativas que resgatam a memória, denunciam a violência de Estado e reafirmam valores democráticos ganham ressonância. Filmes assumidamente antiautoritários dialogam com inquietações globais. Não falam apenas do passado nacional, mas o temor de um presente compartilhado.

Além disso, esse interesse renovado não se limita ao Brasil. Hollywood e os grandes festivais demonstram curiosidade crescente por histórias que escapam do eixo Estados Unidos-Europa Ocidental. Ainda assim, o momento brasileiro é singular. Ele afirma ao mundo a força, a diversidade estética e a maturidade política de uma cinematografia capaz de transformar experiências locais em linguagem universal. Cultura, afinal, é também ferramenta de democracia, memória e soberania.

Daqui até o terceiro domingo de março, a exatos 51 dias, o país inteiro se tornará crítico de cinema e especialista em tapete vermelho. É uma tradição que faz parte da nossa cultura. A eventual conquista da estatueta será apenas a coroação do momentos especial que vivemos. O essencial já ocorreu. O cinema brasileiro voltou a ocupar o lugar que sempre lhe pertenceu: o de espelho crítico do país e voz relevante no debate global. Sim, se tornou protagonista em Hollywood.

 

  • Google Discover Icon
postado em 23/01/2026 06:04
x