ARTIGO

Lula e Trump, diálogo imprevisto

Lula fará uma visita de Estado a Washington em março. Esse é o mais importante sinal de que a diplomacia brasileira está trabalhando bem para tourear Donald Trump

André Gustavo Stumpf jornalista 

Há algum tempo, tenho alertado o leitor para o fato de que o candidato da oposição à Presidência da República deve ser Carlos Massa, o Ratinho Junior, governador do Paraná. Ele, com 44 anos, é muito bem avaliado em seu estado, trabalha com ideias e práticas liberais. Trata-se da alternativa natural a Tarcísio de Freitas. O Governador de São Paulo prefere se candidatar à reeleição para continuar no Palácio dos Bandeirantes. É mais fácil, mais simples e dispensa a companhia dos bolsonaros, que significam demandas, queixas, pequenas intrigas e denúncias de corrupção. Ele prefere se resguardar para 2030. 

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No Brasil, tradicionalmente, a vida começa, na prática, após o carnaval. Depois da festa popular, começarão a ocorrer os fenômenos políticos esperados para influenciar este 2026. Neste ano, contudo, algo importante ocorreu no período de férias. O presidente Lula se entendeu com Donald Trump. Eles conversaram sobre os temas de atualidade, e mais: Lula deverá ir a Washington, para uma visita de Estado, no mês de março, depois de ter visitado Índia e Panamá. Visitas de Estado na capital dos Estados Unidos significam uma distinção importante. Não é uma conversa qualquer.

Este é, de longe, o mais importante sinal de que a diplomacia brasileira, sempre muito eficiente, está trabalhando bem para tourear Donald Trump, o dono do mundo. Ele está na posição de conversar com Lula, trocar ideias e, ao que parece, ouvir algumas considerações brasileiras. O presidente brasileiro tem conversado fartamente à direita e à esquerda. Fala com o presidente eleito do Chile, com Macron, da França, com o russo Putin e outros chefes de governo. Ele se transformou em importante interlocutor neste tempo de grandes incertezas internacionais. Conseguiu, até agora, não responder ao convite para integrar o Conselho da Paz, anunciado pelo presidente dos Estados Unidos. Não disse sim, nem não. 

A política externa tem consequências na política interna. A sólida posição internacional do presidente Lula, neste momento, protege o Brasil de algum tipo de influência externa nas eleições deste ano. O próprio Lula é o candidato com mais chance de vencer o pleito. A oposição ainda está se organizando. As novidades começam a aparecer. Ronaldo Caiado deixou a União Brasil e aderiu ao já poderoso PSD, de Gilberto Kassab, que já tinha em seus quadros dois candidatos à Presidência da República. Agora, tem três. Além de Caiado, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, também se apresenta como candidato a candidato. O discurso oficial do partido indica que os três deverão buscar apoio do eleitor e, mais à frente, se define quem será o candidato do PSD — que será aquele que estiver melhor nas pesquisas. A ação do novo e poderoso PSD terá o poder de dividir a candidatura de oposição, que vai se distribuir entre bolsonaristas e o candidato que resultar das negociações internas e do nível de aprovação verificado em pesquisas eleitorais. Há, também, a sempre complicada montagem dos palanques estaduais, que tem o poder de interferir na candidatura presidencial.  

 O outro candidato de oposição é o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair. Foi indicado pelo pai sem consulta prévia a partidos ou dirigentes de legendas. Decisão pessoal e impositiva. Ele tenta se viabilizar em viagens ao exterior. Foi aos Estados Unidos em busca de alguma manifestação de apoio de Trump ou de alguém da assessoria do presidente. Não foi bem-sucedido. Viajou para Isael, mergulhou nas águas do Rio Jordão e disse que o presidente Lula é antissemita. Campanha estranha porque em Israel o aborto é permitido e as mulheres são obrigadas a fazer serviço militar. Nada semelhante com o que ocorre aqui. Mas o sobrenome Bolsonaro ainda tem respaldo na direita brasileira.

O PSD cresceu lentamente nos últimos anos e está assumindo seu verdadeiro perfil. O de partido de centro, liberal, que aposta na redução de impostos, diminuição do tamanho do Estado, melhorar o ambiente de negócios e incentivar as exportações. Alguns líderes do PSDB, que vivem a agonia de terem sido um grande partido e perdido espaço no país, conseguiram avançar em conversas dentro da agremiação para se unir ao PSD. Os líderes tradicionais do partido aceitaram. Seria mantido o tucano, com símbolo da nova agremiação. Uma campanha publicitária faria a transição do PSDB para PSD, que, na realidade, significa a perda da letra B. Tudo quase pronto e negociado, o acordo não foi em frente porque Aécio Neves não concordou. Resultado, os principais articuladores dos tucanos hoje negociam às claras, ou de maneira menos ostensiva, a favor do PSD. A fusão não aconteceu na prática, mas pode ocorrer na realidade.

 

 

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