
Proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o chamado "Conselho da Paz", na verdade, representa a maior ameaça à existência da Organização das Nações Unidas (ONU) nos seus pouco mais de 80 anos. Por isso, a sinalização dada pelo assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, de que o Brasil deve declinar do convite que recebeu de Trump para participar do fórum reflete uma leitura que precisa ser considerada pela prudência que exige o atual cenário internacional.
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A proposta da Casa Branca, embora sedutora em sua promessa de agilidade decisória, é um convite ao desmanche da ONU. A história ensina que a proliferação de fóruns concorrentes tende a esvaziar a legitimidade das instituições estabelecidas, substituindo a lei internacional, construída a duras penas desde 1945, pela "lei do mais forte" travestida de consenso entre poucos. Criar uma entidade paralela, seletiva e inevitavelmente orbitando os interesses de Washington significa enterrar tudo que vem sendo construído pela comunidade internacional desde o fim da Segunda Guerra.
Ao indicar a recusa, o Palácio do Planalto reafirma um princípio histórico da diplomacia brasileira: a defesa do multilateralismo universal, com fóruns amplos, inclusivos e regidos por normas — ONU, Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização dos Estados Americanos (OEA), Organização Mundial da Saúde (OMS) etc. —, como forma de proteger países médios e periféricos, reduzir assimetrias de poder e reforçar uma ordem jurídica internacional baseada em regras, não na força.
É inegável — e o Brasil tem sido vocal nesse diagnóstico — que a ONU atravessa sua mais grave crise de credibilidade. O Conselho de Segurança, travado pelo anacronismo do direito de veto e pela paralisia de seus cinco membros permanentes, tem falhado miseravelmente em sua missão de manter a paz, como atestam as tragédias na Ucrânia, em Gaza e no Sudão. Entretanto, diagnosticar corretamente a doença não autoriza a eutanásia do paciente.
A posição sinalizada por Amorim é coerente. Seria contraditório ao Brasil pleitear a reforma e o fortalecimento da ONU — incluindo um assento no Conselho de Segurança — com uma mão, enquanto a outra ajuda a erguer o mausoléu onde a organização seria enterrada. Participar de um Conselho da Paz excludente seria legitimar a fragmentação do mundo em blocos rivais, o que contraria a vocação universalista e pacificadora do Itamaraty.
O caminho para um mundo mais seguro não passa pela demolição das instituições, mas pela sua urgente e profunda atualização. O multilateralismo, com todos os seus defeitos, continua sendo a única rede de proteção para as nações que não têm ogivas nucleares ou poder econômico hegemônico.
O foco da comunidade internacional deve ser canalizar a energia política para destravar as reformas da ONU, tornando-a mais representativa, e não embarcar em aventuras que, prometendo a paz, podem acabar institucionalizando a discórdia e a irrelevância diplomática.

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