
Ao saber da morte do adolescente Rodrigo Castanheira após 16 dias em estado gravíssimo na UTI de um hospital em Águas Claras, revivi uma dor que nunca morre. Há mais de três décadas, acompanhei com revolta e incredulidade o assassinato de Marco Antônio Velasco, espancado por uma gangue numa quadra do Plano Piloto de Brasília. Filho de minha grande amiga Valéria, hoje também repousando na companhia de Deus, Marquinho não teve chance de defesa.
Acompanhei durante muitos e muitos anos a vida de uma família transformada não apenas pelo luto, mas pela revolta de perder um filho, um irmão, um amor, pela batalha que se sucedeu em busca de justiça, pela vida de saudade e dor que se seguiu à sua morte. Enquanto família e amigos faziam vigília na porta do hospital, eu também pedia a Deus, com todas as minhas forças, por um milagre para Rodrigo. E hoje peço amparo para quem viverá de ausência e de espera por punição justa, ainda que isso não seja suficiente. Nada será.
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O que o ato criminoso de 33 anos atrás difere deste agora, quando o lutador e empresário Pedro Turra esmurrou e matou Rodrigo na saída de uma festa em Vicente Pires? Marquinho apanhou de uma gangue, um bando de adolescentes. Rodrigo apanhou de um, enquanto outros testemunhavam, filmavam e nada faziam.
Na real, tudo mudou em 30 anos, mas, paradoxalmente, nada mudou. Marquinho morreu com múltiplas fraturas; Rodrigo, com traumatismo craniano. Entre essas duas mortes, tivemos muitas outras em Brasília. O mundo continua parindo e educando para a violência, para a desumanidade, para o desprezo pela vida humana. Com um agravante: a bestialidade de filmar um ato bárbaro transforma meninos idiotas e sem qualquer postura crítica em cúmplices de assassinatos. Ao menos, produzem provas que podem esclarecer os fatos e refutar versões de que foi uma briga, algo assim corriqueiro, que terminou mal. Não foi isso. Foi muito pior.
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Seria simplista culpar pai e mãe, embora não dê para eximi-los de responsabilidade de sua criação. Nenhuma família age conscientemente para lançar assassinos ao mundo. Mas a falta de limites, a cultura de violência, o egoísmo, o apreço pelo material em detrimento do espírito e a falta de valorização da vida estão matando jovens e condenando suas famílias a uma vida de intenso sofrimento. Cada um de nós deve agir e refletir sobre as necessidades de uma vida coletiva e compartilhada, pautada por valores e pelo amor ao próximo. Vamos fazer nossa parte.

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