
De hoje até a quarta-feira de cinzas, o Brasil volta a experimentar a mais emblemática suspensão de rotinas. O carnaval toma as ruas como espaço de alegria, irreverência e crítica. É festa, mas a história mostra que, sob confetes e serpentinas, o país também expõe tensões e mazelas políticas. As investigações, por exemplo, que envolvem o Banco Master e alcançam o Supremo Tribunal Federal ganharão forma em fantasias, cartazes e marchinhas. Se dizem que o ano começa depois do carnaval, em 2026 iniciou bem antes. E promete não arrefecer.
O carnaval, ensinam psicólogos e sociólogos, é um período de suspensão provisória das normas. No cotidiano, cada um veste máscaras sociais para proteger o ego e cumprir papéis. Na folia, as defesas se afrouxam. A rua se torna território de expressão, inclusive de desejos reprimidos. Não por acaso, a festa é também um laboratório de identidade. Movimentos como o "Não é não!" mostram que a liberdade só se sustenta quando está acompanhada de limites éticos claros. A permissividade carnavalesca não é salvo-conduto para violência ou desrespeito.
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Historicamente, o carnaval de rua, especialmente em cidades como Olinda, é um gesto político. Em 1977, diante da crise financeira e do esvaziamento oficial promovido pelos militares, a população assumiu a organização da festa. Rejeitou o modelo de espetáculo segregado e reafirmou a ocupação democrática do espaço público. Durante a ditadura, vestir a camisa de um bloco e sair às ruas era ato simbólico de resistência. O riso, muitas vezes, aparecia como a única linguagem possível de contestação.
Neste ano, um símbolo da nossa tradição ganhou as telas do cinema. Depois do êxito de Ainda estou aqui no Oscar, a produção de O agente secreto projetou nacionalmente a estética e a energia da troça Pitombeira dos Quatro Cantos. A aparição de uma camisa retrô do bloco, usada por Wagner Moura, desencadeou uma corrida por uma igual. O fenômeno revelou dois lados da moeda: o vigor cultural capaz de atravessar fronteiras e a fragilidade estrutural das agremiações, que dependem da venda oficial de seus produtos para financiar desfiles. A pirataria, nesse contexto, é ameaça concreta à sustentabilidade de tradições que sobrevivem mais por paixão coletiva do que por apoio institucional.
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Ao mesmo tempo em que a cultura popular ganha as ruas, o topo das instituições enfrenta questionamentos que atingem a espinha dorsal da República. As investigações da Polícia Federal sobre transações relacionadas ao Banco Master e ministros expõem possível conflito de interesses em pleno Supremo Tribunal Federal. Não se trata de prejulgar, mas a crise, se aprofundada, pode se tornar uma das mais delicadas da história recente do Judiciário.
O Supremo, guardião da Constituição, precisa ter em mente que a confiança pública é patrimônio instável. Em tempos de polarização exacerbada, qualquer sombra alimenta discursos de descrédito. E, como vimos em outros momentos históricos, a erosão da confiança institucional raramente produz estabilidade. O calendário reforça essa tensão. Além da ressaca moral e física da folia, 2026 reserva ainda Copa do Mundo e eleições. Dois eventos capazes de mobilizar paixões e redefinir rumos. O país entra no carnaval com o termômetro político elevado e sairá dele ainda mais aquecido. Como o senso comum diz que o Brasil desperta somente na quarta-feira de cinzas, os próximos capítulos prometem.

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