ARTIGO

Falta de respeito

Neste 2026, na boca do carnaval, a PF rompeu a tradição de deixar assuntos impactantes para depois das Cinzas. Escândalos já houve antes, uns grandes, outros menos. Mas nenhum deles se compara, em magnitude, ao atual

O PSol pediu ao STF por meio de uma liminar a suspensão imediata da gratificação. -  (crédito: Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/Arquivo)
O PSol pediu ao STF por meio de uma liminar a suspensão imediata da gratificação. - (crédito: Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/Arquivo)

JOSÉ HORTA MANZANO, empresário

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Ninguém pode negar: não há mais respeito neste país. Desde que o entrudo largou o antigo nome e passou a chamar-se carnaval, os brasileiros sabem que o ano só começa de verdade depois das brincadeiras de fevereiro. Nada de importante acontece antes do fim dos folguedos pagãos, que são justamente os que congregam crentes e descrentes, brincalhões alcoolizados e cidadãos abstêmios, estrelas internacionais e o populacho nacional, todos bradando músicas transcendentes, da jurássica Mamãe eu quero a suas atuais descendentes.

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Até outro dia, esses dois primeiros meses do ano eram pontuados de férias escolares, folga matrimonial para a mãe que viaja com os pequenos e o pai que continua no batente, recesso para aqueles cujas altas funções permitem essa apelação. Exceptuada alguma surpresa do inesperado, como acidente grave, sinistro importante ou queda de meteoro, os grandes temas nacionais costumavam ser empurrados para março, abril, daí para a frente.

Isso foi no tempo em que ritos eram respeitados neste país. Mas que ninguém se engane, essa compostura nunca foi absoluta. Assim como os fura-greves estão aí para furar greves, os desmancha-prazeres desmancham o prazer das férias, das folgas e dos recessos alheios. Mas o mal que causam nunca foi muito extenso, nunca chegou a perturbar a Páscoa. Já os acontecimentos deste ano foram excepcionalmente irrespeitosos.

Neste 2026, na boca do carnaval, quando as baterias das escolas de samba já rufavam dando o esquenta e as alegorias recebiam os retoques finais, a Polícia Federal rompeu a tradição de deixar assuntos impactantes para depois das Cinzas. Numa curiosa coincidência — coincidência? —, entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório que era nitroglicerina pura. Tratava da análise das gravações do celular pertencente ao proprietário do Banco Master. As conversas, que falavam com naturalidade de milhões de reais para cá e para lá, revelavam relacionamento próximo entre o banqueiro caído em desgraça e doutor Toffoli, ministro do Supremo.

E isso lá é assunto para circular pela imprensa logo à beira do carnaval? Isso lá é preocupação para botar no ombro de nossos foliões numa hora que deveria ser do frevo, do samba, talvez de novas coqueluches importadas de Porto Rico? De qualquer modo, já que a notícia está aí, não dá para guardá-la na geladeira esperando o carnaval passar.

Não ficou clara a real intenção de quem decidiu espalhar a boa-nova em mau momento. Na melhor das hipóteses, a esperança era de que o rumor dos passistas na avenida encobrisse o murmúrio dos espantados com o escândalo. Numa hipótese mais daninha, a intenção dos autores do vazamento era justamente perturbar a festa, marcando, assim, no espírito de todos, a lembrança de um carnaval agitado.

Se era pra marcar espíritos, marcou. Agora que a folia vai longe e que a Quaresma chegou, o assunto continua quente, chiando na chapa, gordura salpicando, gente enfiando celular pelo esgoto, malas recheadas de dinheiro despencando do alto de edifícios — para muita gente fina, instalou-se um clima de "salve-se quem puder porque o mundo acabou".

Não é para menos. A falta de respeito para com o preceito de aguardar a passagem do carnaval para só então dar partida ao novo ano trouxe a público a prova dos noves da extensão da malha de interesses (nem sempre republicanos) que perpassam a trupe que manda neste país.

Escândalos já houve antes, uns grandes, outros menos. Mas nenhum deles se compara, em magnitude, ao atual. No emaranhado de ganância e oportunismo que enrola os envolvidos no "caso Master", encontra-se a fina flor do que há no topo de nossa República. Sem mesmo aprofundar investigações, já se vislumbram ministros, altos funcionários, parlamentares, industriais, empresários, banqueiros. Entre os personagens, estão até excelências do Supremo. Um assombro.

Na época dos militares, havia lombadas na rua em frente a quartéis do Exército. Uma placa avisava: "Diminua a velocidade. Zona de Segurança". Um amigo europeu, recém-chegado ao Brasil, me perguntou o que era aquilo, e eu expliquei. Ele me devolveu: "Pois devia estar escrito: 'Zona de Insegurança'".

Nosso país entrou numa perigosa zona de insegurança, dado que a máscara daqueles em quem confiávamos caiu — eram hereges! Só nos resta invocar os santos de verdade, aqueles lá do alto. Que nos amparem!

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Por Opinião
postado em 26/02/2026 06:00
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