Ana Paula Brito — museóloga e historiadora, professora da UFPE e fundadora da Rebrapesc (rede de pesquisadores do campo da memória social); Graziela Ares — pesquisadora do CES-Universidade de Coimbra/FCT e coordenadora do Clube de cinema da Rebrapesc
O sucesso internacional de O agente secreto trouxe novamente o entusiasmo pelas premiações em pleno verão brasileiro. No entanto, assim como em Ainda estou aqui, o brilho das conquistas veio acompanhado de resistências externas que revelam muito sobre quem critica. Recentemente, o diretor de um filme concorrente à categoria de Melhor filme internacional acusou os brasileiros de serem "ultranacionalistas", chegando a afirmar que, se o país submetesse um "sapato" ao Oscar, todos votariam nele.
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Por aqui, a recepção da obra prova que o que está em jogo não é um patriotismo cego ou uma unanimidade acrítica. É possível encontrar brasileiros que não amaram o filme, mas se conectaram com a potência criativa de um cinema capaz de furar bolhas, gerar inquietações e fomentar um debate necessário em um país extremamente polarizado. O filme elabora memórias de feridas coletivas ainda mal-elaboradas socialmente no espaço público. Embora alguns insistam que já é hora de o Brasil olhar apenas para o futuro, ainda temos muito a compreender sobre quem somos enquanto nação, o que inclui reconhecer nossos erros e acertos, nossas glórias e traumas, nossos orgulhos e vergonhas.
Kleber Mendonça Filho logrou êxito ao servir um "caldinho", iguaria típica da gastronomia pernambucana, em temperatura amena para agradar a diversos paladares e climas. O filme entrega uma narrativa complexa e carregada de referências, por vezes pouco evidentes, mas também acessível pela simplicidade de seus personagens cotidianos. É uma obra que demanda um olhar atento para quem deseja mergulhar em sua densidade sociopolítica, mas que também acolhe quem busca apenas fruição estética e entretenimento.
Um dos grandes méritos a se destacar de O agente secreto é o rompimento com as lentes "sudestinas" que habitualmente retratam a ditadura brasileira. Ao situar a trama no Recife, o diretor territorializa os efeitos do período ditatorial, trazendo para o centro da ação o papel da elite econômica, muitas vezes sombreada pelo protagonismo dado aos militares nas telas. Aqui, a ditadura não é apresentada como uma dicotomia simplista, mas como um rizoma, que se infiltra em muitas camadas da vida cotidiana, atravessando vidas reais marcadas pela cultura local e regional nordestina.
O cinema brasileiro demonstra, assim, que as "botinas" militares não são mais as únicas protagonistas das nossas narrativas públicas. A memória, com suas oscilações, disputas, silêncios e esquecimentos induzidos, assumiu o papel principal. As memórias traumáticas e historicamente marginalizadas são agora cobradas e (re)elaboradas com sutileza, sem perder a profundidade.
Tentar reduzir a qualidade dessa entrega a um "nacionalismo" é ignorar como a arte ajuda um povo a enfrentar seus traumas coletivos e ressignificar o presente. A acusação feita pelo diretor espanhol, contra os brasileiros, diz muito sobre a dificuldade em lidar com fantasmas históricos, seja do passado, seja do presente. E essa dificuldade vai muito além das fronteiras nacionais e afeta, hoje, muitos outros países, inclusive a Espanha. Mas, para compreender a relevância do filme brasileiro, é preciso "calçar o sapato do outro" e um pouquinho de boa vontade para perceber a universalidade do tema ali abordado!
Nossa defesa por O agente secreto não é secreta: fazemos porque o filme é bom, necessário e porque o cinema brasileiro aprendeu a reelaborar o passado com maestria. As memórias da ditadura romperam censuras e silêncios institucionalizados e são, hoje, cada vez mais significativas. Há ainda muito a ser feito. Que tenhamos a coragem de enfrentar tantas outras memórias traumáticas que ainda aguardam essa elaboração pública.
Estaremos aqui para celebrar a liberdade e a coragem do cinema brasileiro que elabora publicamente nossas dores, coletivas, plurais e intergeracionais. Viva a memória e o cinema brasileiro.
"Podemos sorrir, nada mais nos impede".
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