Alice Roberte de Oliveira — doutora em comunicação pela Universidade de Brasília e pesquisadora de condomínios de quitinete na capital federal
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Feita sob encomenda, Brasília é uma cidade singular e abriga a maior área tombada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco): o Plano Piloto. Idealizado por Lucio Costa, o local permanece associado à ordem urbanística, à qualidade de vida e a um ideal de convivência entre classes sociais inscrito no projeto modernista. No entanto, um outro modo de morar no centro da capital vem se consolidando: os condomínios de quitinetes. Esses espaços revelam uma tensão profunda entre legalidade urbanística, lucro do mercado imobiliário e a precariedade cotidiana de quem neles vive.
As quitinetes do Plano Piloto não são um fenômeno recente. Resultam de décadas de adaptação improvisada de salas comerciais para uso residencial e, mais recentemente, da construção deliberada de edifícios voltados a uma demanda por moradia central, compacta e relativamente mais barata. Trata-se de uma resposta privada a um problema público: a escassez histórica de moradia acessível em uma área rigidamente protegida pelo tombamento e pressionada pela valorização imobiliária.
Durante anos, esses imóveis existiram em uma zona cinzenta da legalidade. Eram prédios licenciados para uso comercial, mas ocupados como residências. A aprovação do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCUB), em agosto de 2024, reconheceu e institucionalizou essa prática ao permitir oficialmente o uso misto em setores antes destinados a escritórios e serviços. A regularização, no entanto, não foi acompanhada de um debate público mais amplo sobre as condições de vida produzidas por esse modelo de moradia.
Para o mercado imobiliário, as quitinetes são um produto de alta rentabilidade: unidades pequenas, de rápida ocupação e baixo custo relativo de construção. Para quem mora, a equação é outra. Muitos residentes são trabalhadoras e trabalhadores de Regiões Administrativas distantes ou do Entorno do Distrito Federal, onde o custo social da moradia se expressa em longos deslocamentos, desgaste físico e instabilidade profissional. A quitinete surge, assim, como estratégia de sobrevivência urbana: pequena, limitada, improvisada, mas bem localizada.
Viver em uma quitinete no Plano Piloto significa, para muitos, ganhar tempo para trabalhar, estudar, descansar e manter o emprego. A proximidade do trabalho e do lazer compensa, parcialmente, a falta de conforto e de infraestrutura adequada ao uso residencial. Em diversos condomínios, por exemplo, é proibido o uso de gás de cozinha, e os moradores dependem de fogões elétricos, micro-ondas e air fryer. A precariedade, contudo, tende a ser naturalizada como escolha individual, quando é produzida estruturalmente.
Há, nesse processo, uma inversão perversa: o ônus da cidade desigual é deslocado para o corpo e a rotina dos indivíduos. O discurso da "qualidade de vida" passa a justificar a compactação extrema da moradia, enquanto os problemas de mobilidade urbana seguem sem solução por meio de políticas habitacionais inclusivas.
Os condomínios também tensionam o projeto urbanístico de Brasília. Diferentemente das superquadras, concebidas como espaços abertos e integrados à cidade, os condomínios de quitinetes são cercados e controlados, introduzindo no coração do Plano Piloto uma lógica de enclausuramento que o modernismo pretendia evitar.
Apesar de sua popularização, esse modo de morar raramente aparece no debate público. Fala-se muito sobre o deficit habitacional nas periferias, mas pouco sobre as formas precárias de habitar o centro. As quitinetes escancaram uma contradição fundamental de Brasília: para muitas pessoas, acessar a centralidade implica aceitar concessões severas na qualidade da moradia.
As reflexões apresentadas dialogam com minha experiência como ex-moradora de quitinete e pesquisadora do tema, com tese defendida recentemente na Universidade de Brasília (UnB). As quitinetes são, em última instância, um sintoma de uma cidade que preserva sua forma, mas flexibiliza seus usos em favor do mercado, transferindo o custo da desigualdade para quem precisa morar perto do trabalho para viver.
Saiba Mais
