Hélio Laranjeiras — procurador de Estado, pedagogo e consultor educacional
O debate sobre a formação médica no Brasil deixou de ser apenas acadêmico e tornou-se um alerta institucional. O diploma de medicina, por si só, já não assegura preparo suficiente para proteger a vida. Essa constatação não se apoia em percepções isoladas ou retórica alarmista, mas em dados objetivos que vêm se acumulando e sendo sistematicamente ignorados. Desempenhos insatisfatórios em exames de revalidação, dificuldades recorrentes de acesso à residência médica e fragilidades evidentes em avaliações práticas revelam falhas reais na formação de parte dos egressos. Em um campo onde o erro produz dano concreto, tratar esse cenário como exceção é uma forma silenciosa de negligência.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Apesar da clareza do diagnóstico, a resposta que tem prevalecido no debate público é marcada por simplificações convenientes. Reduzir a crise da formação médica à expansão do número de cursos ou defender o fechamento indiscriminado de escolas é uma solução politicamente palatável, mas tecnicamente insuficiente. O problema central não está apenas na quantidade de vagas ofertadas, mas no esgotamento de um modelo educacional que já não acompanha a complexidade da medicina contemporânea. A ciência médica avançou de forma acelerada, incorporando tecnologias, protocolos baseados em evidência, métodos diagnósticos sofisticados e terapias de alta complexidade. O conhecimento se renova continuamente, exigindo profissionais capazes de aprender, decidir e se atualizar ao longo de toda a vida profissional.
Ainda assim, a formação médica no país permanece, em grande parte, prisioneira de um modelo linear, fragmentado e excessivamente conteudista, no qual teoria, prática e avaliação caminham de forma desconectada. Trata-se de um padrão que atravessa todo o sistema e não se restringe a instituições recentes ou privadas. Ele está presente também em escolas tradicionais, públicas e privadas, o que desmonta a narrativa confortável de que o problema se limita a quem oferta o curso. O desafio é estrutural e reside na lógica formativa: certifica-se a presença em etapas formais, mas não se assegura, de modo consistente, a competência profissional.
Durante décadas, o diploma foi compreendido como ponto final de um processo formativo quase definitivo. Essa lógica perdeu sustentação. A medicina do século 21 exige atualização permanente, leitura crítica de evidências, tomada de decisão em ambientes de alta complexidade e compromisso ético contínuo. Nesse contexto, o diploma deixou de ser ponto de chegada e precisa ser tratado como ponto de passagem em um percurso formativo contínuo e verificável. Apostar que a conclusão do curso garante preparo pleno é ignorar a natureza dinâmica da prática médica e comprometer a própria finalidade da profissão: preservar vidas.
O papel do Estado como regulador não é opcional nem decorativo. Regular a formação médica é uma obrigação indelegável quando o objeto da política pública é a vida humana. A experiência recente demonstra que modelos regulatórios baseados apenas em autorizações administrativas, infraestrutura declarada e critérios formais são insuficientes para garantir qualidade. Limitar vagas sem acompanhar resultados é apenas gestão simbólica. O que protege a sociedade é o monitoramento contínuo da aprendizagem, a avaliação longitudinal de competências, o acompanhamento do desempenho dos egressos e a transparência sobre o impacto real da formação na qualidade do cuidado prestado à população.
A formação médica não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva das faculdades, nem como ônus individual do estudante. Tampouco pode ser abandonada à lógica de mercado ou resolvida por medidas administrativas isoladas. É necessário estabelecer um novo pacto entre educação, saúde e Estado, orientado por evidência, responsabilidade compartilhada e compromisso com resultados concretos. Formar melhor não significa formar menos a qualquer custo, mas fazer mais com menos improviso, menos formalismo vazio e menos ilusão de que o diploma encerra o processo formativo.
A crise da formação médica não será resolvida com decisões apressadas nem com soluções que produzem manchetes, mas não resultados. Ela exige coragem institucional para rever modelos, abandonar zonas de conforto e assumir que a proteção da vida começa muito antes do exercício profissional. Quando a formação médica falha, o sistema até resiste, mas o cidadão paga o preço primeiro — e quase sempre sozinho. Esse é um custo alto demais para continuar sendo tratado como detalhe administrativo.
Saiba Mais
