ARTIGO

Resíduo nuclear não é lixo: é ativo estratégico

O chamado "lixo nuclear" é, em sua imensa maioria, material reaproveitável ou passível de reutilização tecnológica. O impacto mais concreto desse reaproveitamento está na medicina nuclear

Opinião 2701 -  (crédito: Caio Gomez)
Opinião 2701 - (crédito: Caio Gomez)

Celso Cunhapresidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan)

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Durante décadas, o debate sobre o combustível nuclear usado foi conduzido no Brasil a partir de uma premissa equivocada: a de que ele representa um passivo perigoso e sem utilidade. Os dados técnicos e a experiência internacional demonstram exatamente o oposto. O combustível nuclear irradiado não é um problema insolúvel. É um ativo estratégico, com aplicações diretas na saúde, na segurança energética e na soberania tecnológica.

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Estudos internacionais indicam que até 97% do combustível nuclear usado pode ser reaproveitado por meio de processos de reciclagem e reprocessamento já dominados por países como França, Rússia e Reino Unido. Apenas cerca de 3% do volume final corresponde a rejeitos de alta atividade, que necessitam de disposição definitiva controlada. Em outras palavras, o chamado "lixo nuclear" é, em sua imensa maioria, material reaproveitável ou passível de reutilização tecnológica.

Além disso, o volume físico envolvido é extremamente reduzido. Toda a energia nuclear gerada ao longo de décadas em uma usina produz um volume de combustível usado que cabe em instalações de armazenamento compactas, monitoradas e rastreáveis. Diferentemente de outras fontes energéticas, o setor nuclear internaliza 100% de seus rejeitos, assumindo integralmente a responsabilidade por todo o ciclo do combustível.

O impacto mais concreto desse reaproveitamento está na medicina nuclear. Radioisótopos derivados do ciclo do combustível nuclear são fundamentais para diagnósticos e terapias oncológicas, cardiovasculares e neurológicas. No Brasil, a medicina nuclear é responsável por milhões de procedimentos diagnósticos por ano, sendo absolutamente dependente do fornecimento contínuo de radiofármacos. O próprio Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) foi concebido para produzir radioisótopos destinados a mais de 30 tipos de radiofármacos, com potencial para dobrar a capacidade anual de procedimentos e gerar uma economia superior a US$ 15 milhões por ano em importações.

Esse dado revela um paradoxo preocupante: o país que mais precisa da tecnologia nuclear para salvar vidas ainda enfrenta resistência ideológica ao debate sobre o próprio insumo que viabiliza esses tratamentos. Não há medicina nuclear sem tecnologia nuclear. Não há radioisótopos sem domínio do ciclo do combustível.

Sob a ótica energética, a discussão também é estratégica. A energia nuclear responde hoje por cerca de 1,3% da geração elétrica brasileira, com apenas dois reatores em operação. Ainda assim, fornece energia estável, contínua e de baixa emissão de carbono, complementando fontes intermitentes e fortalecendo a segurança do sistema elétrico nacional. No mundo, mais de 440 reatores nucleares estão em operação, reforçando o papel da tecnologia como pilar da transição energética global.

O que impede o avanço desse debate no Brasil não é a falta de tecnologia, nem de conhecimento técnico. É uma narrativa construída ao longo do tempo, baseada no medo e na desinformação. Quando o combustível nuclear usado é tratado apenas como ameaça, o país deixa de discutir soluções reais, perde competitividade e posterga decisões estratégicas.

Discutir o combustível nuclear irradiado é discutir saúde pública, política industrial, autonomia tecnológica e soberania nacional. É também alinhar o setor nuclear às melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG), já que se trata de uma das únicas indústrias capazes de comprovar controle total sobre seus rejeitos.

O Brasil precisa substituir slogans por dados, ideologia por evidências e silêncio por transparência. O combustível nuclear usado não é um problema a ser ocultado, é um tema que exige maturidade institucional e visão de futuro. Avançar nesse debate não é uma opção retórica. É uma decisão estratégica de país.

Ignorar essa realidade significa condenar o país à dependência externa em áreas sensíveis, como a saúde e a energia, justamente em um contexto global marcado por instabilidade geopolítica, disputas por cadeias produtivas estratégicas e crescente demanda por soluções energéticas confiáveis e limpas. Países que avançaram no domínio do ciclo do combustível nuclear compreenderam que a gestão responsável desses materiais não é apenas uma obrigação regulatória, mas um diferencial competitivo e civilizatório.

Ao tratar o resíduo nuclear com seriedade técnica, transparência e planejamento de longo prazo, o Brasil tem a oportunidade de transformar um debate historicamente contaminado por preconceitos em uma agenda positiva de desenvolvimento, inovação e proteção da vida. O combustível nuclear irradiado não é herança indesejada, é parte de uma solução moderna, segura e necessária para um país que pretende ocupar um lugar de protagonismo científico, energético e sanitário no século 21.

 

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Por Opinião
postado em 27/01/2026 06:00
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