ARTIGO

Brasil avança na prevenção da bronquiolite com novo imunizante no SUS

Oferta do nirsevimabe a bebês mais vulneráveis reforça estratégia do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para reduzir casos graves de VSR

Renato Kfouripediatra infectologista, mestre pela Unifesp, secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) detalhou, no último dia 20, como se dará a oferta de um novo imunizante contra o vírus sincicial respiratório (VSR) no Sistema Único de Saúde (SUS), marcando um avanço relevante na estratégia de prevenção da bronquiolite no Brasil. O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal indicado para a prevenção de infecções respiratórias graves em bebês causadas pelo VSR e estará disponível, a partir deste mês, para a proteção de bebês mais vulneráveis às formas graves da doença — todos os prematuros e/ou com comorbidades definidas no Protocolo de Uso do imunizante aprovado.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

A bronquiolite é hoje uma das principais causas de hospitalização de crianças pequenas no país. Em 2025, tivemos uma temporada crítica da doença: entre fevereiro e junho, as hospitalizações de crianças menores de 1 ano cresceram 36% em relação a 2024 e 71% em relação a 2023, segundo dados do OpenDataSUS. Mais grave ainda, quase um terço desses bebês necessitou de internação em UTI, evidenciando o peso da doença sobre as famílias e a rede hospitalar.

Essa escalada de casos, principalmente durante a sazonalidade do vírus — que pode durar de janeiro até agosto, a depender da região do Brasil —, pressiona hospitais, amplia custos para o sistema de saúde e gera um impacto silencioso para milhares de famílias que enfrentam a internação de seus filhos ainda nos primeiros meses de vida. Nesse contexto, a definição de um protocolo nacional de prevenção representa um passo importante para antecipar riscos e reduzir desfechos graves.

A incorporação do nirsevimabe no SUS é inicialmente voltada a bebês prematuros e com comorbidades, seguindo a lógica de priorizar grupos de maior risco clínico. Porém, mesmo a prematuridade e a existência de doenças crônicas sendo fatores para aumento do risco de complicações por infecções pelo vírus, a maioria das hospitalizações ocorre em bebês saudáveis e nascidos a termo, o que reforça a complexidade do desafio e a importância de monitorar continuamente os impactos das novas estratégias ao longo de sua implementação.

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html

A experiência internacional oferece evidências relevantes sobre o potencial dessa tecnologia. No Chile, que decidiu oferecer o imunizante a todos os bebês, independentemente de serem prematuros ou a termo, os resultados publicados no The Lancet Infectious Diseases foram expressivos: houve redução de 76% nas hospitalizações por VSR, de 85% nas internações em UTI pediátrica e, mais importante, nenhuma morte relacionada ao VSR registrada em bebês menores de 1 ano no primeiro e segundo ano de adoção da estratégia de imunização — em 2023, antes da implementação, o Chile teve 13 mortes relacionadas a doença.

Na Europa, dois países também são exemplos: Espanha e França. Na França, um estudo multicêntrico reportou efetividade de 83% contra hospitalizações e até 81% contra internações em UTI em bebês que receberam o imunizante. Já na região da Galícia, na Espanha, dados mostraram redução de 82% nas hospitalizações por VSR já na primeira temporada, com impacto semelhante em atendimentos de emergência e UTI. Além dos efeitos imediatos, dados mais recentes também indicam benefícios sustentados da prevenção precoce: para crianças que foram imunizadas na temporada anterior, o imunizante está associado a 55% menos hospitalizações por VSR na segunda temporada, 62,4% menos hospitalizações recorrentes por infecção respiratória do trato respiratório inferior e 76,9% menos internações recorrentes por bronquite ou bronquiolite aguda. Esses achados demonstram a capacidade do imunizante de contribuir com a preservação do desenvolvimento pulmonar saudável e redução da morbidade ao longo da primeira infância.

Esses dados de mundo real indicam que a prevenção do VSR pode gerar benefícios que vão além da proteção individual, contribuindo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Cada hospitalização evitada significa menos pressão sobre leitos, menor uso de recursos de alta complexidade e mais previsibilidade para o planejamento assistencial. Para as famílias, representa menos sofrimento, menos afastamento do trabalho e menos impacto emocional nos primeiros meses de vida da criança.

A definição do protocolo pelo PNI inaugura, portanto, uma nova etapa no enfrentamento da bronquiolite no Brasil. Trata-se de um avanço concreto, baseado em evidências científicas e alinhado às melhores práticas internacionais, que amplia as ferramentas disponíveis para proteger bebês contra uma das principais causas de internação pediátrica no país. A forma como essa estratégia será implementada e avaliada ao longo do tempo será decisiva para consolidar seus benefícios e orientar os próximos passos da política pública de prevenção do VSR no país.

 

Mais Lidas