A 122 dias da Copa do Mundo, a democracia será submetida, neste domingo, a um teste duríssimo no Super Bowl, a tradicional final da liga profissional de futebol americano. O que o esporte da bola oval tem a ver com o da redonda? Os Estados Unidos são um dos três países anfitriões do megaevento da Fifa, a partir de 13 de junho, em parceria com o Canadá e o México. Logo, recomendo atenção aos bastidores artísticos e políticos do espetáculo entre New England Patriots e Seattle Seahawks no Levi's Stadium, em Santa Clara.
A tensão do jogo é ampliada pelo badalado show do intervalo e a repercussão da exibição do ícone do trap latino Benito Antonio Martinez Ocasio, o Bad Bunny, uma das vozes mais críticas à política migratória do presidente Donald Trump. Aos 31 anos, o artista nascido em Bayamón, Porto Rico, quebrará um paradigma ao se tornar o primeiro não estadunidense a ocupar o palco na noite nobre em um concerto com canções totalmente em espanhol.
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A Roc Nation, produtora de Jay-Z, escolheu Bad Bunny devido ao impacto global do artista mais ouvido em 2025 — e em quatro dos últimos seis anos. A questão é: ele não ostenta unanimidade, entre outros motivos, por causa do ativismo político e social. A escolha irritou Donald Trump. "Absolutamente ridículo".
Em entrevista ao The Athletic, publicação esportiva do The New York Times, um jogador anônimo da National Football League (NFL) partidário do presidente dos EUA endossou a crítica à escolha de Bad Bunny com uma declaração xenófoba. "O show do intervalo deveria ser sempre de um artista dos EUA".
A NFL manifestou-se em defesa de Bad Bunny. "É um dos maiores do mundo e entende o poder que tem para agregar pessoas", justificou Roger Goodell, comissário da NFL.
O cantor ganhou o Grammy de Álbum do Ano com Debí Tirar Más Fotos, a principal distinção do evento de gala. Jamais uma obra totalmente em espanhol havia conquistado a principal estatueta da principal premiação da música mundial.
Ao receber o prêmio, Bad Bunny atacou Trump. "Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas, somos humanos e somos americanos. O ódio se torna mais poderoso com mais ódio. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes", cobrou no discurso seguido de aplausos. Bunny canta, entre outros temas, mazelas de Porto Rico como a corrupção e a perda da identidade cultural.
Ícone global, Bunny apresentou as letras das músicas dele em 57 concertos pelo mundo, 12 deles na Espanha, e experimentará a apoteose no Super Bowl para um público de 130 milhões de espectadores. O anúncio da escolha do artista quebrou as redes sociais. "Vão ser 13 minutos fazendo o que eu amo. Quero que as pessoas se divirtam, dancem. Não importa não entender o idioma", ponderou o astro na entrevista coletiva em San Francisco.
Donald Trump esteve na final da Copa do Mundo de Clubes da Fifa em julho do ano passado, no MetLife Stadium. Não há certeza sobre a ida dele ao Levi's Stadium amanhã, mas é ativo nas redes sociais. O comportamento do presidente homenageado pela Fifa com o Prêmio da Paz será um termômetro tenso de 13 minutos do que vem por aí daqui a 122 dias na Copa. Trump será pacífico ou bélico antes, durante e depois do show do intervalo? A ver...
