ARTIGO

Queijo artesanal e o Estado necessário

O Queijo Minas Artesanal vive um momento de reconhecimento e valorização. Mas nada disso teria sido possível sem a presença ativa, estratégica e responsável do Estado

. -  (crédito: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
. - (crédito: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)

Zé Silvadeputado federal (Solidariedade-MG)

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 Hoje, o Queijo Minas Artesanal vive um momento de reconhecimento e valorização. Mas nada disso teria sido possível sem a presença ativa, estratégica e responsável do Estado. Quando falo em Estado, refiro-me a instituições como a Emater-MG, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e à visão pioneira do governador Itamar Franco, que compreendeu que o Estado não deve ser nem mínimo e ausente, nem gigantesco e sufocante. Ele deve ser necessário: presente, atuante e eficaz.

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Esse entendimento começou a se concretizar no ano 2000, com o decreto que reconheceu oficialmente o Queijo Minas Artesanal de leite cru, abrindo caminho para sua proteção, valorização e reconhecimento como patrimônio cultural e produtivo de Minas Gerais.

Em 2003, assumi a presidência da Emater-MG, após um período na França, conhecendo como aquele país que há séculos protege seus produtores e produtos artesanais. Inspirados nesse modelo, criamos o Programa Queijo Minas Artesanal, estruturando uma rede de extensionistas capacitados para apoiar produtores de diferentes regiões queijeiras. Promovemos intercâmbios técnicos, missões internacionais e trocas de conhecimento entre técnicos e produtores mineiros e franceses, aliando tradição e ciência.

Na Epamig, universidades e centros de pesquisa implantaram estudos científicos, reunindo o saber tradicional dos mineiros, a experiência dos franceses e o conhecimento científico moderno. Tudo isso com o intuito de aprimorar as técnicas de produção, sem jamais perder de vista a preservação e a valorização da tradição. 

Em tempos difíceis, em que a produção de queijo artesanal de leite cru era considerada quase um ato de rebeldia, lembro com tristeza das imagens de queijos sendo apreendidos e destruídos, com creolina sendo jogada sobre eles ou até enterrados. Parecia um crime produzir queijos. Mas o Estado, por meio de políticas públicas focadas e comprometidas, foi um ponto de apoio fundamental para reverter essa situação.

Em 2007, na presidência da Emater-MG, promovemos o primeiro concurso de queijos, onde, a partir da análise das características da região (solo, pastagem, raça do gado, altitude), fomos caracterizando as diferentes regiões produtoras. Isso resultou no reconhecimento de diversas especificidades do queijo minas, com destaque para o uso do pingo (a cultura tradicional usada para coagular o leite), um elemento de extrema importância no processo de fabricação.

Naquela época, junto com o presidente do IMA, Altino Rodrigues, entregamos o primeiro cadastro de inspeção para o produtor Vanderlino. Esse foi um passo importante, que permitiu aos queijos mineiros, até então considerados clandestinos, participar de concursos internacionais e trazer para Minas importantes prêmios.

Ao final da gestão na Emater-MG, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, implantamos centros de maturação de queijos em Medeiros e Rio Paranaíba, inspirados no modelo da região francesa de Franche-Comté, referência mundial na produção de queijos artesanais.

Nada disso teria sido possível sem a coragem dos produtores rurais, mas também não sem a presença estruturada do Estado. Mais de 1.200 extensionistas foram contratados e qualificados, formando uma Emater-MG técnica, valorizada e preparada.

Em 2011, como deputado federal, levei para Brasília a bandeira da assistência técnica e extensão rural, especialmente, a causa do queijo artesanal. Esse produto, que é sagrado nas roças de Minas, estava sendo tratado como um "veneno", sendo apreendido e destruído. No Congresso, lutei incansavelmente para que os queijos artesanais de Minas e do Brasil fossem reconhecidos e respeitados. 

Em 2015, apresentei o Projeto de Lei do Selo Queijo Artesanal, ao lado do amigo deputado Alceu Moreira (RS). A luta para aprovar a lei foi longa, com muitos debates e desafios. Mas, em 2019, conseguimos aprová-la na Câmara dos Deputados e no Senado.

A regulamentação da lei tornou-se uma das mais municipalistas do país, permitindo a inspeção por serviços municipais ou consórcios, viabilizando a comercialização em todo Brasil e a exportação. O produtor passou a acessar novos mercados, com maior valorização, enquanto o consumidor ganhou segurança e qualidade.

Esse percurso culminou, em 2025, com o reconhecimento da Unesco, que declarou o modo de fazer do Queijo Minas Artesanal Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Uma conquista que reafirma: sem o Estado necessário, esse sucesso não teria acontecido e não teria o mesmo sabor.

 

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Por Opinião
postado em 06/02/2026 06:00
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