MAURÍCIO ANTÔNIO LOPES, pesquisador e ex-presidente da Embrapa
O Brasil convive com um paradoxo amplamente reconhecido, mas ainda insuficientemente enfrentado. Somos um dos países mais ricos do mundo em recursos naturais estratégicos, como minerais, biomassa, água e energia, mas avançamos de forma limitada na agregação de valor, na industrialização avançada e na busca de autonomia tecnológica. Exportamos matérias-primas em grande escala e importamos tecnologia de alto valor agregado. O aspecto mais preocupante não é a existência desse quadro, mas a tendência de tratá-lo como algo quase inevitável, e não como resultado de escolhas.
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Dados recentes deixam esse padrão explícito. Em 2024, o Brasil exportou US$ 337 bilhões em mercadorias, com um superavit comercial de US$ 74,6 bilhões. No entanto, a pauta segue marcada por fortes assimetrias tecnológicas: no comércio com a União Europeia, por exemplo, exportamos US$ 48,3 bilhões e importamos US$ 47,3 bilhões no mesmo ano. Valores semelhantes, mas com naturezas distintas — do lado brasileiro, predominam petróleo, café, minérios, alimentos e celulose; do lado europeu, máquinas, equipamentos, fármacos, veículos e químicos de alto valor agregado.
O caso do quartzo, do silício e dos semicondutores é emblemático. O Brasil detém algumas das maiores e mais puras reservas de quartzo do mundo, mas permanece marginal nas etapas de maior valor da cadeia. Segundo dados recentes, o país exporta quartzo bruto por valores da ordem de dezenas de dólares por tonelada e importa silício de grau eletrônico e semicondutores por milhares de dólares por quilo. Exporta matéria-prima estratégica e importa inteligência incorporada em chips, sensores e dispositivos eletrônicos.
Padrões semelhantes podem ser observados em outros setores. O Brasil continua entre os maiores exportadores de minério de ferro do mundo, mas permanece dependente de importações de máquinas industriais e equipamentos de alta precisão fabricados externamente. A indústria de transformação como um todo bateu recorde de US$ 181,9 bilhões exportados em 2024, mas isso foi impulsionado majoritariamente por produtos de baixa e média intensidade tecnológica.
No agronegócio, o Brasil consolidou-se como uma potência global na produção e exportação de commodities agrícolas, apoiado por ganhos expressivos de produtividade, ciência tropical de excelência e inovação no campo. Trata-se de um setor dinâmico, tecnologicamente sofisticado e fundamental para a economia nacional. Ainda assim, a agregação de valor industrial associada à transformação dessa biomassa — em alimentos processados, bioquímicos, combustíveis avançados, materiais e serviços tecnológicos — permanece aquém do seu potencial.
O café expõe de forma inequívoca essa realidade: o Brasil lidera as exportações, com cerca de 40 milhões de sacas em 2025, mas os maiores benefícios econômicos são capturados por países que não produzem café. Nos Estados Unidos, cada dólar importado gera cerca de US$ 43, sustentando uma indústria que movimentou US$ 343 bilhões e manteve 2,2 milhões de empregos em 2022. Há muito sabemos que a renda, o emprego qualificado e o poder econômico do café se concentram nos elos de torrefação, marcas, inovação e serviços — fora dos países produtores.
Esses fatos alimentam, com frequência, uma narrativa segundo a qual o foco em commodities, na mineração ou no agronegócio competiria e até inibiria o avanço da indústria e da tecnologia. Essa interpretação tende a simplificar um problema de natureza estrutural. Recursos naturais e setores primários não são, em si, incompatíveis com a sofisticação produtiva. Em diversos países ricos em recursos naturais, esses setores funcionam como plataformas para o desenvolvimento industrial, tecnológico e inovador.
O desafio brasileiro parece residir menos na sua base produtiva e mais na dificuldade histórica de articular, de forma consistente e duradoura, políticas que conectem recursos naturais, ciência, tecnologia, indústria e mercado. Estratégias industriais descontínuas, ambientes institucionais instáveis e horizontes de curto prazo dificultam a consolidação de cadeias de valor mais complexas.
Avançar nesse debate exige cuidado e maturidade. Não se trata de apontar culpados, nem de opor setores que desempenham papéis relevantes na economia nacional. Trata-se de reconhecer que a abundância de recursos naturais oferece uma oportunidade singular — mas não automática — de construir um projeto de desenvolvimento baseado em maior agregação de valor, diversificação produtiva e autonomia tecnológica.
Em vez de contrapor commodities e indústria, o desafio está em pensar como transformar vantagens naturais em vetores de inovação, industrialização e sustentabilidade. O Brasil não precisa escolher entre ser celeiro, minerador ou potência industrial. Precisa decidir se continuará aceitando escolhas fáceis de curto prazo ou se assumirá o risco — e a responsabilidade — de pensar grande.
