
José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras
Vivemos atualmente com uma nova percepção sobre o tempo. Creio que os físicos encontrarão uma teoria sobre a sua compressão, porque temos a sensação de que o tempo está voando. Mas ainda existem os que querem o imediatismo do JÁ!
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O desenvolvimento do corpo humano, na evolução biológica desde os primórdios da criação, continua no mesmo ritmo, mas estamos vivendo agora o que jamais foi pensado, com a internet e a civilização digital, que estão aí para ficar e modificar o modo de pensar numa velocidade inacreditável, com a IA (inteligência artificial) e as redes sociais.
No meio desse vendaval, fica a estranha confusão do anarcopopulismo e dos influencers digitais. Bandeira Tribuzzi tem um poema sobre o drama humano com o tempo: Que tempos de viver-se!
Mas a verdade é que ainda precisamos de uma meditação profunda sobre a convivência do homem com o tempo.
Quando me encontrei com Deng Xiaoping, em Pequim, ele me falou entusiasmado de seu país dali a 100 anos como se dissertasse sobre o dia seguinte. Descreveu-me empolgado as metas dos próximos 50 anos como se comentasse a madrugada que viria.
Refletiu sobre o problema do tempo, que é muito recorrente nos orientais, notando que nós, do lado de cá, no Ocidente, não temos uma visão clara do tempo, de como ele interfere em nossa vida. Fiquei com a impressão de que nos acusava da falácia do "JÁ". No Brasil, temos um exemplo remoto de Dom Pedro II que, ainda adolescente, quando consultado se queria ser imperador, respondera: "Quero JÁ!"
Comecei, então, a aprender o que é o tempo e perceber que é dele que se faz a vida. Muito tenho falado sobre a paciência, mas, hoje, ocorre-me defini-la como a virtude de saber esperar. Não com o sentido de reparar injustiças ou esquecer o passado, mas de ver os fatos com o sabor de "experiência vivida", de ser humilde ao olhar erros, de aprender, de poder emitir conceitos e de ter a consciência de que muitas vezes podemos estar errados.
Nada mais falso do que o chavão de repetir que, se tivéssemos de viver de novo, repetiríamos tudo. Muitas coisas não faríamos, outras acrescentaríamos e outras nem uma coisa nem outra, simplesmente seriam ignoradas. Afinal, a gente melhora com o passar dos anos. Perde-se em vigor, mas ganha-se em saber. Os desenganos, as esperanças modestas, as ambições, as vaidades e as paixões têm o realismo do conhecimento do funcionamento do tempo, da vida. Porque é bíblica e sagrada a certeza de que há tempo de semear e tempo de colher. É possível que o tempo de colher seja mais glorioso. Mas é o tempo de semear que determina o que se vai colher.
Governei o Brasil no período mais difícil de sua história, mais cheio de cobranças políticas. Somavam-se esperanças e dificuldades. As liberdades, represadas por 20 anos, explodiam em reivindicações e gestos de intolerância. A ânsia de mudanças atropelava os fatos.
Coube-me plantar e poucas vezes colher. Há frustração maior do que plantar e não colher? Mas é preciso ter a noção do tempo para esperar o momento da colheita. Como exemplo, recordo que semeei o exemplo de respeitar até o limite dos exageros a liberdade de imprensa, rádio e televisão, porque sempre entendi que a prática da liberdade corrige os excessos. Não apenas nos veículos de comunicação, mas em todo o processo de circulação de informação na sociedade. As instituições se fortalecem e se consolidam. A democracia é um regime que é melhor do que os outros porque sobrevive às crises e sabe absorvê-las.
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O Brasil vive as excelências de um regime democrático, pluralista e aberto. Sua massa crítica e as instituições não entram em colapso em face de tempestades e seguram as estruturas da sociedade e do Estado.
E, dentro desse vendaval, constata-se a verdade de Jefferson de que a liberdade de imprensa é a liberdade fundamental. Nosso Rui Barbosa resumiu o conceito chamando-a "pulmão da democracia".
A semeadura foi boa. Hoje, todos colhemos os frutos de uma imprensa vigorosa, cumprindo sua missão de informar. Porque, no mais, as decisões são frutos da verdade que, como se diz no Maranhão, "é como o manto de Cristo, não tem costura". Inconsútil, não admite remendo.
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