Beto Seabra - Escritor
Brasília, início da década de 1960. A cidade em construção, muita terra vermelha e caminhões, para lá e para cá, levando areia e gente. No meio desse canteiro de obras, a Rodoviária destoava como espaço urbano acabado, pronto. Por ali, passava boa parte da vida pulsante da capital. Quem havia emigrado de uma grande cidade passava por lá, mesmo que não precisasse, só para sentir o cheiro de centro urbano. O primeiro carnaval popular, dizem, também aconteceu lá.
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Ela tinha pouco mais de 15 anos quando conheceu a nova capital. A família mudara-se para Brasília logo depois da inauguração. Pretendiam abrir uma pensão e um restaurante na Cidade Livre. Negócio funcionando, a moça chorava com a perspectiva de não voltar mais para o Rio de Janeiro, onde um noivo a esperava. Mas chegou ocarnaval.
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Viajar para o Rio, nem pensar. Além de caro, o pai não deixaria as filhas — ela e a irmã um pouco mais nova — ficarem sozinhas na cidade grande. Ela escreveu uma longa carta ao noivo, molhada de lágrimas e alfazema, explicando que não poderiam viajar no carnaval e que ela e sua irmã ficariam enclausuradas em casa, durante os quatro dias de folia. O noivo respondeu no mesmo tom, menos choroso, mas com determinação. O carnaval da cidade maravilhosa não o veria naquele ano. Livros e televisão seriam suas únicas companhias durante o reinado de Momo.
Acontece que a moça nada havia combinado com sua irmã, que não estava noiva e que via com interesse a ideia de passar um carnaval na recém-inaugurada capital federal. Além do mais, achara a Rodoviária muito bonita, com aquela vista para a Esplanada e muito rapaz solteiro, completou. As duas faziam uma bela dupla. Uma loira, a outra morena. Ambas cariocas, bem-vestidas e com um sotaque de matar as outras moças de inveja.
A mãe praticamente a obrigou a acompanhar a irmã ao carnaval na Plataforma da Rodoviária. Não queria ir de jeito nenhum. Onde já se viu, sambar no meio dos ônibus? Mas quando lá chegou ficou surpresa. Não é que o lugar era mesmo bonito? Enfeitaram a Rodoviária, encheram de luzes, trouxeram uma orquestra e distribuíram confetes e serpentinas para todos.
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As moças caíram na gandaia, dançaram a noite toda, se esbaldaram. A irmã mais nova arranjou até namorado. Ela ficou apenas na paquera, mas não resistiu quando um grupo a arrastou para o meio do salão. Vestida de odalisca, agarrou um pierrô e saíram abraçados, como se fossem velhos amigos. Posaram para um fotógrafo: faziam um belo casal. No final da noite, dois beijinhos no rosto e nada mais. Trocar telefones, nem pensar. Afinal, era uma moça comprometida.
Acabou o carnaval, vieram as cinzas, e logo o fim de semana chegou. Domingo cedo, o telefone tocou de forma estridente. Eles eram dos poucos na nova capital que tinham uma linha de telefone em casa. Era o noivo. Quase nunca ligava, pois a tarifa era proibitiva. Foi atender assustada. Alguma tragédia na família? Decidira romper o noivado? Segurou o aparelho com as mãos trêmulas.
Ouviu durante cinco minutos calada, tentando explicar-se. Desligou o telefone e correu para o quarto, onde a irmã a aguardava. A culpa era da irmã, disse. Por quê? Quis saber a outra. Quem mandou pular carnaval longe do noivo? Mas como ele descobriu?
Foram juntas à banca de jornal esperar a revista semanal, que chegava aos domingos de manhã, vinda do Rio de Janeiro. E lá estava ela na capada revista, abraçada com o pierrô. Linda e sorridente, e em cores, para todo o Brasil.
