MOACYR DE OLIVEIRA FILHO, jornalista, portelense, ex-presidente da ARUC, diretor de jornalismo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
Uma vez, Tia Surica, matriarca da Portela e integrante da Velha Guarda Show, criticou a cantora Teresa Cristina, que é portelense, por desfilar em outras escolas. A crítica da Tia Surica a quem se diz portelense, mas desfila em outras agremiações, não é antipatia pessoal, vaidade ou disputa pequena. É sobre bandeira — e bandeira, no samba, é coisa séria. Quando ela questiona essa postura, o que está em jogo não é o direito de circular, mas o sentido de pertencimento.
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No universo do samba, identidade não é performance ocasional nem rótulo conveniente. Dizer ser de uma escola de samba carrega implicações históricas, afetivas e políticas. As escolas de samba não são apenas agremiações carnavalescas: são territórios simbólicos, memória coletiva, ancestralidade e resistência cultural. Empunhar — e defender — suas bandeiras exige compromisso e responsabilidade com a história que se carrega.
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Mesmo as escolas se tratando como coirmãs — como disse Cartola em Sala de Recepção — "Aqui se abraça o inimigo como se fosse um irmão" — existe entre elas algo que, à primeira vista, pode ser confundido com rivalidade. Mas não rivalidade nos moldes do futebol, marcada pelo antagonismo, pela hostilidade ou pela negação do outro. No futebol, além de comemorar as vitórias de seu time, se comemora, às vezes até mais, as derrotas dos rivais.
No samba, reconhecer e defender a própria bandeira não significa hostilizar as demais. Não se trata de hierarquizar escolas, diminuir trajetórias ou negar a legitimidade de outras histórias. Ao contrário: só quem tem identidade bem definida consegue respeitar plenamente a identidade do outro. O orgulho de pertencer não nasce da comparação, mas da consciência de origem. Defender uma escola é afirmar um vínculo — não disputar território com as demais.
Bandeira é identidade e compromisso. É posição no mundo. É o elo simbólico que liga o sambista à sua escola, à sua história e à sua comunidade. Em um país que historicamente tentou apagar vozes populares, a bandeira do samba sempre foi também um gesto político: afirmar quem se é, de onde se vem e a quem se pertence. Por isso, grandes nomes do samba sempre tiveram bandeira. Paulo da Portela e Monarco tinham bandeira. Cartola e Jamelão tinham bandeira. Djalma Sabiá, Haroldo Costa, Mestre André, Chiquinho e Maria Helena, Mestre Fuleiro e Dona Ivone Lara tinham bandeira. Tia Surica tem bandeira — e faz questão de honrá-la. Zé Catimba, Martinho da Vila e Selminha Sorriso têm bandeira.
Defender a própria bandeira é algo natural e quase sagrado para o sambista, porque essa defesa não é apenas estética ou competitiva: é histórica, ética e cultural. Não se defende bandeira contra alguém, mas por algo. Trata-se de fidelidade, não de exclusão. Trata-se de responsabilidade com uma história coletiva que foi construída com sacrifício, resistência e afeto.
Isso não impede o respeito mútuo. Pelo contrário. Sambistas se respeitam, se visitam, se encontram em rodas, se apresentam juntos, se abraçam, trocam histórias e afetos. A convivência entre as escolas é marcada pela interação constante e pelo reconhecimento do valor da outra. Umas são madrinhas das outras. Mas quando chega a hora do desfile, do ensaio ou do discurso, cada um fala a partir do seu lugar, da sua escola, da sua bandeira.
O que muitos chamam de rivalidade é, na verdade, um exercício de identidade. Cada escola de samba defende sua bandeira não contra as outras, mas a favor de si mesma, da sua comunidade e da sua história. Não é um "tudo junto e misturado", como ingenuamente acham alguns. É diferente de gostar de todas ou de se emocionar com todas. Isso é torcer. Ser, é outra coisa. O mundo do samba é feito de fronteiras simbólicas claras e respeitosas.
As escolas de samba compartilham a mesma raiz cultural e a mesma luta por sobrevivência e reconhecimento. Mas isso não implica no apagamento das suas identidades. O pertencimento permanece.
No samba, misturar-se não significa diluir histórias. A convivência não elimina a diferença. Cada escola ocupa seu lugar, sustenta sua bandeira e honra seus ancestrais. É justamente essa clareza de pertencimento e a recusa em abrir mão da própria história em nome de uma falsa neutralidade que permite o respeito mútuo e faz com que o samba seja coletivo, diverso e profundamente político.
