Na música Alegria carnaval, composição de Jorge Aragão e Nilton Barros, os compositores nos fazem cantar assim: "Quero viver a vida/Ir prá avenida com a multidão/Braço e abraço/Mão na mão/Todo mundo é meu irmão/Noite ou dia é tudo igual/Alegria e carnaval". Com esses versos, vamos celebrar o carnaval que chegou ao Brasil no século 17, com o entrudo, festa popular portuguesa. A história narra que o entrudo ganhou outros ares porque a população negra, no contexto do regime escravista, participava dos folguedos carnavalescos como forma de resistência à opressão da escravatura.
Proibidos pela legislação escravocrata de revidar os ataques do sistema, as pessoas negras escravizadas procuravam brincar nos entrudos do seu jeito, resistindo à tragédia do sistema escravista que perdurou por quase 400 anos. É fato que o pintor Debret, no século 19, registrou cenas do carnaval como de um grupo de pessoas negras fantasiadas de velhos europeus numa zombaria aos opressores. Sabe-se que, com o fim da escravidão em 1888, registros históricos revelam, principalmente na Bahia, que pessoas negras saíam às ruas exibindo os costumes africanos com a batucada dos tambores anunciando um outro modo de vida e resistência dos povos escravizados.
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Em que pese uma parte significativa do carnaval no Brasil atual compor a lógica da mercantilização da vida, sabemos que a "alegria carnaval" não é apenas uma festa, mas traz resistência, identidade, ancestralidade, encontros, abraços, pertencimento, criatividade, explosão de alegria e, claro, ocupação das ruas, do espaço público.
Os blocos de rua, as escolas de samba e os blocos afro em meio à diversidade de ritmos, samba, frevo, afoxé, axé, marchinhas, maracatu, samba-reggae, entre tantos outros balanceios, associando-se à vibração de cores, ocupam as ruas com alegria abundante. O quilombola Nêgo Bispo nos ensina que a alegria não é um simples passar do tempo, mas é uma estratégia política de celebração da vida, de confluência de encontros dos diversais que resistem diante do lado do mundo que impõe afetos tristes de medo, de ódio, de desespero, de melancolia e de inveja.
Para o filósofo Espinosa, os afetos tristes diminuem a capacidade humana de agir, tornando as pessoas medrosas, melancólicas e desesperadas. Por outro lado, ensina o filósofo, o afeto da alegria produz entusiasmo, coragem, amor, esperança, segurança, força e expansão da força vital. Então, trazendo o saber do quilombo, a "alegria carnaval" é uma resistência alegre ao nos unirmos à ancestralidade viva. E a raiva que carregamos frente às opressões, transformá-la em alegria e celebração da vida.
Necessário destacar a força das mulheres no carnaval. Lembremos de Tia Ciata, baiana, yalorixá, quituteira e articuladora do carnaval da Bahia. Nasceu em 1854, mais tarde foi morar no Rio de Janeiro e tornou-se a "matriarca do samba" carioca. Em sua casa na Pequena África, Tia Ciata recebeu distintos sambistas como Pixinguinha, Donga, entre outros. Sua casa contribuiu para a composição do samba Pelo telefone, em 1916, visto como o primeiro samba gravado no Brasil, o qual foi composto por Donga.
Recordemos, ainda, da "rainha do samba", Dona Ivone Lara. Nascida em 1921, foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo cujo nome é Os cinco bailes da história do Rio, pelo Império Serrano em 1965. Dona Ivone Lara começou a ter carreira como cantora profissional somente com 56 anos. Sendo a primeira compositora de samba-enredo, foi fundamental na luta contra o machismo nos espaços institucionais que relegam para as mulheres, posições de subordinação.
Em nosso Distrito Federal, as mulheres estão vigorosamente presentes na "alegria carnaval". Nossa consideração à Mãe Betinha de Oxum, maestrina e mestranda do grupo cultural Àsé Dúdú. Mãe Betinha integra o coletivo cultural Sambadeiras de Bimba Filhas de Biloca e está há mais de 30 anos no tradicional bloco afro Àsé Dúdú. Outra digníssima mulher do carnaval no DF é a ativista pelos direitos humanos Mãe Baiana, uma renomada líder religiosa do candomblé, defensora das religiões de matriz africana. Ao compor a direção da Escola de Samba do Paranoá, Mãe Baiana realiza e brinca o carnaval com intensidade.
Relevamos, também, as jovens Letícia Helena e Natália dos Santos. A Letícia Helena é do Observatório do Carnaval, atua no fortalecimento das políticas e práticas do carnaval brasiliense. Figurinista, cantora e performer do Bloco do Amor desde a fundação, influenciou a estética nestes 10 anos do bloco. Criadora da campanha Folia com Respeito, atua incansavelmente no enfrentamento à violência contra as mulheres. Natália dos Santos, com apenas 28 anos, é passista de frevo no Bloco Menino de Ceilândia. Criado em 1995, o bloco promove a cultura popular e a cidadania na comunidade de Ceilândia. Natália acompanha o bloco desde criança e vive com fervor o carnaval em sua cidade, a nossa Ceilândia.
Brindemos a cultura do carnaval com uma ética amorosa, no sentido de que "o amor é o que o amor faz", é uma vontade e, ao mesmo tempo, uma ação que envolve respeito, cuidado, atenção e responsabilidade com todas as pessoas. Vamos às ruas pular alegria, amores e tecer outro mundo possível.
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