ARTIGO

Quem tem medo das escolas de samba?

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes

Opinião 1402 -  (crédito: Caio Gomez)
Opinião 1402 - (crédito: Caio Gomez)

JORGE SANTANA, professor doutor de história do Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Campo Largo

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As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.

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É nesse contexto político, marcado pela eugenia e pelo racismo científico, que surgem as escolas de samba. As agremiações de samba eram e são muito mais que entidades carnavalescas, são espaços de sociabilidade, de produção cultural, resistência, aquilombamento, reexistência, protagonismo negro, produção multiartística, manifestação política e de congraçamento da vida. Como diz o escritor Antônio Simas, "as escolas de samba não desfilam por isso existem, mas existem e por isso desfilam".

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. No pretérito, eram acusadas de centros de balbúrdia, antros de desocupados e lócus da vadiagem. No presente, elas são alvos de críticas que associam à libertinagem, reduto de gays e lésbicas, promotoras de "macumba", redutos da contravenção (jogo do bicho), mantenedoras do atraso cultural e inimigas da moral cristã e dos bons costumes. 

Os atuais detratores recorrem a acusações de que elas não contribuem para a cultura, não dão retorno à sociedade, ou o desenvolvimento da nação, além de que não produzem nada de positivo ou edificante. Essas acusações caem como frágeis castelos de cartas ao constatarmos que esses detratores, na verdade, temem as escolas.

Desde o início, as escolas sofreram com a censura ou o controle estatal. A Vizinha Faladeira foi proibida de ter como tema do carnaval "Branca de neve e os setes anões", pois o regulamento só permitia que as escolas abordassem temas nacionais. Ou seja, era a busca incessante do Estado em fazer das escolas difusoras da história dos chamados grandes temas e homens da nação. O Império Serrano foi censurado durante a famigerada ditadura civil militar (1964-1985) por trazer um enredo para a avenida falando em liberdade.

Décadas atrás, até a Igreja Católica também censurou a Beija Flor, que proibiu a alegoria do Cristo Redentor caracterizado de mendigo. Joãozinho, o Trinta, driblou a censura, embrulhou o Cristo com saco preto e colocou a frase "Mesmo proibido, olhai por nós". Neste ano, parlamentares de extrema-direita tentam censurar a escola de samba Acadêmicos de Niterói, por ter como tema o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A alegação é que a homenagem configura campanha eleitoral ilegal, com uso do dinheiro público.

Aqui não quero discutir se o mandatário merece ou não a singela homenagem, mas sobre o que leva à busca da censura, pois são os mesmos que acusam as escolas de samba de não contribuírem em nada, de não ser cultura e de não promover nenhum impacto positivo para a população brasileira.

Na verdade, as acusações falam muito mais sobre os acusadores do que sobre as tão criticadas escolas de samba. Porque só se busca proibir ou censurar aquilo que tem relevância, força e potência transgressora. Portanto, seja o Estado, seja a Igreja, e, atualmente, seja uma parte dos parlamentares, não buscam censurar as escolas de samba porque elas são irrelevantes. Mas, justamente, pelo contrário. As escolas de samba têm relevância, potência, impacto sobre a opinião pública, poder de pautar a sociedade e de construir imaginário social.

O pecado original dessas instituições está na sua origem e no seu ethos. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas; formadas em sua maioria por homens e mulheres negras; por manterem viva a cultura popular; por não se submeterem aos poderes e interesses da elite, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes. Portanto, o problema dos críticos e aspirantes a censores nunca foi sobre a relevância, potência e importância delas. Mas sobre não poder controlá-las. Sem esse controle, para quem tem medo das agremiações, sobra a famigerada censura.

 


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Por Opinião
postado em 14/02/2026 06:00
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