"Ei, tio, lembra de mim"? Constrangido, o interlocutor se esquiva. "Desculpe, mas acho que não te conheço". "Tudo bem, eu também não me lembro de você. Aproveita, compra aí meu dindim: só 7 reais — redução de danos!". Acompanhei o garoto esperto, cabelos encaracolados, 12 anos, nas suas tratativas para vender os tubinhos gelados. Um marmanjo mareado comprou logo dois, de abacate, e comemorou: meu almoço tá resolvido. Tintim, nascido Martim, era acompanhado por um séquito: mãe, tia, três amigos e um casal. A princípio tímido, à medida que vendia, a confiança aumentava e a abordagem segura impedia qualquer negativa. "Fui professora, até 2002, quem sabe foi meu aluno?". "Eu nem tinha nascido", respondeu com um sorrisão maroto nosso comerciante. Ela comprou logo dois. Em menos de uma hora, explosão na Praça da Vila Planalto. O bloco Charrete resultou em 27 dindins vendidos, R$ 189 no bolso. Tintim sentenciou: "Vou comprar tudo em hambúrguer e viagens de patinete elétrico".
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As estatísticas são infladas no carnaval. As pessoas enchem os pulmões para dizer quantos foliões estavam na rua. Precisamos de cúmplices para os crimes conexos (ingênuos) que cometemos nessa época. Assim foi na etapa seguinte da nossa farra. Mais de 100 mil pessoas na praça do Museu da República para receber Gretchen. Sim, ela mesma, uma dinossaura dos palcos, arrastando multidões no Bloco das Montadas. A música eletrônica não impedia a vibração. Um forte esquema de segurança, com revistas em minúsculas pochetes, garantia a tranquilidade dos presentes. A confiar nos números estratosféricos, o Brasil já está com 400 milhões de habitantes.
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Mas bom mesmo é sair nos bloquinhos que serpenteiam entre os blocos das quadras. As árvores de Brasília nos protegem do calor imenso. Zebras, onças, papais-noéis, melindrosas, caricatas, fadas, capetas, duendes. Moradores aparecem nas janelas como se estivessem num camarote e aplaudem. O Vai Quem Fica é um deles. Com clima familiar (e isso é bom?), marchinhas antigas, crianças em carrinhos e um baita formigueiro no caminho. Afinal, o sacro e o profano brincam de mãos dadas. Reza a lenda urbana que ele nasceu de um grupo de amigos cantando sob a sombra de um ipê na Asa Norte. Há aglomeração para todo gosto. A gente vira pipoca na boca de bêbado. Pingamos da Asa Sul para a Norte, uma parada no Clube do Choro. Os mais animados passeiam pelas cidades satélite. Na despedida oficial do Tríduo Momesco, terça-feira, o Calango Careta e o Ventoinha de Canudo arrastaram o povão (milhões de pessoas) nas 200 e 400 da Asa Norte.
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Participei da criação do Pacotão, bloco surgido nos anos 1980 com marchinhas que remetiam ao fim do agonizante regime militar. "Aiatolá, venha nos salvar, que esse governo já ficou gagá", cantávamos aos berros acreditando que, com isso, ajudaríamos a acelerar a democratização. Fiz algumas incursões nos anos seguintes. A briga por patrocínio oficial acabou com a pureza do desfile. Aliás, um bando de expressões inúteis: pureza, tradição, família em segurança. O que vale mesmo é a diversão. Na dimensão em que ela ocorrer. Com a crença e a disposição de cada um. Brasília não é mais um deserto. Tem gente na rua. E que ruas lindas, protegidas por árvores e embaladas por alegria. Mas, se for sair, cuidado com o formigueiro!
