
Quando se fala no combate ao consumo abusivo de álcool, o depoimento de pessoas que conviveram, ou ainda convivem, com a doença é fundamental para conscientizar quem enfrenta a árdua batalha. Em vídeos recentes publicados em seu canal no YouTube, o músico Nando Reis, ex-Titãs, abriu o jogo e falou com detalhes sobre os maus bocados que passou por conta da dependência — sobretudo da vodca. São falas fortes e de enorme interesse público em um país que contabiliza quatro hospitalizações por hora justamente por esse problema, segundo dados do anuário Álcool e a saúde dos brasileiros: panorama 2025.
Vivemos em uma sociedade que banaliza perigosamente o consumo do álcool. As gerações X (nascidos entre 1965 e 1980) e Y (de 1981 a 1996) cresceram em meio à celebração contínua da cervejinha e dos drinks em cada reunião de família. Bebia-se muito cedo, já na adolescência, sem qualquer problematização ou julgamento dos pais e demais responsáveis. O tempo passa, porém, e os danos do perigoso hábito começam a se manifestar na vida adulta — ao menos sete tipos de câncer, por exemplo, são associados à substância.
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Em seu depoimento, Nando Reis destaca que o mais difícil é evitar "o primeiro gole". A partir dele, a pessoa dependente não consegue colocar o pé no freio e consome mais do que havia combinado consigo mesma. É um caminho sem volta, desabafou o artista, hoje em recuperação e sem beber há cerca de 10 anos. O músico só conseguiu superar o vício ao ver a carreira por um fio, quando compareceu bêbado a um ensaio para se apresentar com Gilberto Gil. Todos perceberam, pegou mal na frente do maior ídolo.
O limite social entre o tolerável e o perigoso, no caso do álcool, é difuso. No quesito fisiológico, autoridades são taxativas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há dose segura para o consumo. Inclusive, o chamado "binge drinking", o exagero restrito aos fins de semana, um padrão comum no Brasil, pode ser tão prejudicial para a saúde quanto a ingestão diária da substância. Ainda que a metabolização do álcool varie de acordo com aspectos físicos e genéticos, o impacto é certeiro em qualquer cenário.
Diante disso, é preciso que o Brasil comece a combater o consumo de álcool como guerreou contra o tabagismo a partir dos anos de 1980 — sobretudo no campo da conscientização. A aceitação cultural da ingestão, por vezes, dificulta o entendimento dos riscos da substância. Inclusive os riscos sociais: o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), por exemplo, trabalha com a estimativa de que 30% dos acidentes fatais no Brasil envolvem motoristas que estavam sob efeito de álcool. Exige-se, portanto, estratégias atualizadas e eficazes para vencer esses e outros obstáculos.
A boa notícia fica com a nova geração, formada por pessoas nascidas a partir de 1997, que tem se dedicado a novos rumos para o lazer e as celebrações. Pesquisa do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) aponta que a abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos. Esse, sim, precisa ser um caminho sem volta.

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