MICHEL MEDEIROS — Jornalista, especialista em comunicação governamental e marketing político
Consultiva do Pacto de Promoção da Equidade Racial
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Se, no Brasil, o ano só começa após o carnaval, na política distrital ainda deve demorar mais um pouco para os motores aquecerem. Caso o projeto encaminhado pelo GDF na última sexta-feira, na tentativa de capitalizar o BRB, não prospere, a semana promete ser, novamente, morna. No centro do debate, as pautas de costume requentadas devem ocupar espaço considerável da sessão de terça-feira.
No plenário, as discussões devem girar em torno do desfile da rebaixada Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula. O enredo, interpretado por alguns como intempestivo — tendo em vista estarmos em ano eleitoral e Lula ser candidato declarado à reeleição —, parece ter servido mais à oposição do que à base governista, já que o primeiro escalão da Esplanada dos Ministérios foi orientado a não desfilar e a não aparecer na avenida, antes ou depois da passagem da agremiação, evitando possíveis penalizações por campanha antecipada. A ordem era assistir de camarote.
Nesse cenário, se o objetivo era dar visibilidade ao petista, o tiro saiu pela culatra. Quem se beneficiou do desfile foram os políticos de oposição, principalmente os da ala mais conservadora, que conseguiram capitalizar com a homenagem e construir uma narrativa de fortalecimento do grupo. Talvez tenha faltado à equipe da escola de samba um bate-papo com um marqueteiro, para entender que, muitas vezes, o ataque só fortalece o adversário. Nesse aspecto, ponto para a família conservadora, que de chacota tornou-se vítima e afastou ainda mais o público evangélico do candidato à reeleição.
Outra pauta que deve ocupar parte dos comunicados de líderes e de parlamentares na sessão de terça-feira foi o uso, considerado excessivo ou não, de spray de pimenta contra o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Fábio Felix (PSol). As imagens provocaram três movimentos nos bastidores da Casa: os que defendem o parlamentar, os que defendem a corporação e os que querem explicações, mas são contrários a uma nota em nome do colegiado.
Pautas que poderão, inclusive, roubar parte do tempo destinado às discussões sobre o escândalo envolvendo o BRB, o GDF e o Banco Master, cujo esforço do Executivo está concentrado na contratação de empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), dando como garantia 12 imóveis do GDF, como o Centro Administrativo, em Taguatinga. Mas, embora a urgência, não há consenso aparente para a aprovação da matéria. O que exigirá esforços da equipe de articulação de Ibaneis junto aos distritais.
Nos bastidores, um dos temas que movimentará os próximos 45 dias é a abertura da janela partidária, prevista para o período de 6 de março a 5 de abril, que permite aos parlamentares em exercício trocar de legenda sem o risco de perder o mandato por infidelidade partidária.
Não bastassem as incertezas comuns ao período — quando pré-candidatos e suas equipes fazem contagens estimadas e exaustivas dos possíveis cenários e nominatas antes de escolher uma sigla —, soma-se a indefinição quanto a atores importantes do cenário local, a começar pelo próprio governador, que, embora já tenha declarado que se licenciará para concorrer ao Senado, enfrenta um período de aridez política.
A verdade é que muitos deixarão para anunciar uma possível mudança após os 45 minutos do segundo tempo. Neste ano, a decisão ficará para os pênaltis, e qualquer passo mal dado pode repercutir negativamente no pleito marcado para 4 de outubro. As indefinições têm efeito cascata no processo político: caso o cenário, até então bem definido, para governo, Senado e os principais postulantes à Câmara dos Deputados mude, qualquer peça removida do tabuleiro pode gerar um efeito dominó, remodelando todo o jogo político. Afinal, o que é mais interessante: aventurar-se a um posto mais alto ou tentar se manter na cadeira onde tudo parece ganho?
Enquanto os martelos não são batidos, a segunda-feira começa como mais um "ano novo" simbólico, quando todos voltam ao trabalho livres das distrações das férias, do recesso e da programação de carnaval — nem que seja até o feriado da Semana Santa. Mas, por enquanto, a política deve seguir em banho-maria, ao menos até a primeira semana de março, ainda presa às amarras do ano velho.
Se anos eleitorais são particularmente mais curtos, 2026 já começa com um atraso de quase 60 dias para a política distrital, em que escândalos, incertezas e silêncios se mostram ainda mais acentuados. Enquanto isso, desejemos, mais uma vez, um feliz ano novo.
