José Mourinho é um dos melhores técnicos do século 21. Levou o Porto ao título da Champions League em 2004. Repetiu o feito na Internazionale em 2010. Brindou o Manchester United com a Liga Europa em 2017. Deu a Conference League à Roma em 2022. Rivalizou com Pep Guardiola. Reconhecimentos à parte, o treinador do Benfica erra ao lidar com a denúncia de racismo de Vinicius Junior. O cinismo não está incluso no pacote de quem se autointitula há 20 anos “The Special One”.
“Por favor, não me chamem de arrogante, o que estou dizendo é verdade. Sou um campeão europeu e acho que sou um cara especial”, disse em 2004, ao assumir o Chelsea e tirá-lo da fila de 50 anos no título de 2004/2005 no Campeonato Inglês.
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Caras especiais não desqualificam vítimas. Não se isentam em pautas nas quais não existe muro. Evitam a hipocrisia. Mourinho criticou a comemoração de Vini. Logo ele, que em 2010 celebrou a classificação da Inter para a final da Champions League provocando a torcida do Barcelona no gramado do Camp Nou e levou banho de água fria no acionamento dos esguichos do campo. A pergunta seria a mesma feita pelo sommelier de comemorações ao brasileiro: não dava para festejar de outro jeito na casa alheia?
Mourinho fugiu da dividida sobre racismo porque ganhou legalidade. Em 2025, o então técnico do Fenerbahçe foi acusado no clássico turco ao dizer que os jogadores do Galatasaray “pulavam como macacos no banco de reservas” ao pressionar o árbitro esloveno Slavko Vincic.
O Galatasaray denunciou Mourinho. O vice-presidente do Fenerbahçe, Akun Ilacli, se apressou em defendê-lo. “Que racismo é esse?” José se referia a um grupo de pessoas pulando e reagindo exageradamente. Ele não estaria comparando alguém do clube com macacos”.
O Ministério Público de Istambul absolveu Mourinho. “Nenhum crime ocorreu. Não havia necessidade de processo. A queixa-crime foi concluída com decisão de não acusação”, orgulhou-se o Fenerbahçe em um comunicado oficial.
A vitória na Justiça deu legalidade a Mourinho para minimizar casos de racismo. Daí o malabarismo ao revelar que falou com Prestianni, escutou Vinicius Junior e não poderia se posicionar. Ficou no muro. Desqualificou a denúncia endossada por uma testemunha. O francês Mbappé ouviu cinco vezes: “Macaco”.
O treinador tem fama de “Dick Vigarista”. O título de um dos bons livros sobre ele é: Mourinho Rockstar: As diversas faces do técnico mais polêmico do mundo. Em 2011, enfiou o dedo nos olhos de Tito Vilanova, então auxiliar de Pep Guardiola depois da derrota do Real Madrid por 3 x 2 para o Barcelona na Supercopa da Espanha. Fez sinal de silêncio em provocação aos torcedores do Tottenham depois de uma vitória do Manchester United.
Em vez de questionar Vini, Mourinho deveria respeitar a voz da vítima — e não desqualificá-la. Ser “The Special One” é muito mais do que empilhar títulos no currículo e encher a conta de dinheiro. Comportou-se como “The Shamed One”.
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