Não é de hoje que as comparações alimentam as redes sociais com o único objetivo de gerar cliques. A bola da vez é invadir qualquer postagem sobre a influenciadora Virginia Fonseca para decretar que a cientista Tatiana Sampaio é "mais importante". A comparação beira o surrealismo e retrata perfeitamente uma guerra de engajamento em que não existem vencedores.
A raiz do embate vem de uma fala de Gabriel David, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). Ele insinuou, durante o carnaval, a importância superior que Virginia teria no país. Uma onda de críticas surgiu nos mais diversos feeds — até aí, com certa razão.
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O que potencializou o debate foi o trabalho de Tatiana Sampaio. Professora doutora em biologia celular da UFRJ, ela desenvolve uma pesquisa promissora com a polilaminina, substância que pode ser a chave para o tratamento de lesões na medula. Quase ao mesmo tempo da fala de David, um vídeo de Tatiana relatando como os cortes no orçamento afetaram os estudos viralizou.
Já Virginia Fonseca dispensa apresentações. Com milhões de seguidores, no comando de empresas e citada até em CPI, ela é onipresente no digital.
Você deve estar pensando que este texto criticará o sucesso de Virginia em detrimento do reconhecimento de Tatiana, mas a questão aqui é mais profunda.
Virginia e Tatiana pertencem a universos distintos que o público insiste em colocar em rota de colisão, quando a união seria o cenário ideal. O argumento de que uma é "mais importante" que a outra revela um raciocínio mesquinho e superficial, típico das redes sociais. É a fabricação de uma guerra inútil.
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É compreensível o senso de injustiça. É meio revoltante observar influenciadores acumularem recursos ilimitados com publicidade de apostas ou panetones de R$ 10 mil, enquanto cientistas lutam contra o desmonte da pesquisa nacional. Contudo, rivalizar os dois contextos não resolve o problema; pelo contrário, apenas fomenta o ódio em uma situação já desigual.
Antes de Tom Jobim ouvir a primeira nota da vida, o brasileiro já sabia sobre a frase celebre do maestro: o Brasil não é para amadores. Ser rica e famosa não é um pecado de Virginia, mas o sonho de consumo de milhares que a acompanham diariamente — um desejo muito mais popular do que enfrentar anos de estudo com recursos escassos, como no caso de Tatiana, diga-se de passagem.
Tanto a influenciadora quanto a cientista têm seus lugares no mundo. Elas não merecem uma comparação descabida e deveriam — mesmo contra a vontade do algoritmo — mostrar que a convergência traz mais resultados do que uma guerra que, com certeza, nenhuma das duas quer lutar, muito menos vencer.
