ARTIGO

Precisamos falar de ciência

A espetacularização criada em torno da pesquisa da bióloga Tatiana Sampaio, que pesquisa uso da poliaminina, e os desdobramentos dessa exposição por parte da mídia são mais uma prova da importância do letramento científico no Brasil

A espetacularização criada em torno da pesquisa da bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e os desdobramentos dessa exposição por parte da mídia são mais uma prova da importância do letramento científico no Brasil. Em pouco mais de uma semana, o trabalho da cientista foi de "cura da paraplegia" a "falsa esperança" — um movimento que nada tem a ver com o promissor estudo preliminar da equipe de Sampaio, mas, sim, com como isso foi comunicado ao público e manipulado por "influenciadores" e até políticos.

(Aqui, peço licença para abrir um parágrafo-parêntese. Enquanto o presidente Luís Inácio Lula da Silva postou um constrangedor vídeo nas redes sociais encorajando a cientista a "pedir ao ministro da Saúde" para "liberar logo" os estudos clínicos com a poliaminina, o senador Flávio Bolsonaro, cuja família demonstrou diversas vezes o desprezo pela produção acadêmica, chamou de "milagre" os 25 anos de pesquisa de Sampaio e, para arrematar, batizou o objeto de estudo de "proteína de Deus" porque a estrutura tem formato de cruz). 

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Além do uso político de uma pesquisa científica que, caso rigorosamente testada e confirmada, poderá beneficiar pacientes com lesões medulares, o estudo da equipe de Tatiana Sampaio recebeu interpretações, no mínimo, levianas. Valendo-se da pouca familiaridade do brasileiro com a ciência, os resultados obtidos até agora foram vendidos como promessa de cura e já até "anunciaram", em redes sociais, que a bióloga já ganhou o Nobel. 

Isso é injusto com pacientes esperançosos e com os pesquisadores. Enquanto as manchetes exaltam a recuperação de pessoas que não conseguiam mexer nenhum dedo, é em letra miúda que se explica a situação atual dessa pesquisa que, repito, é extremamente promissora, porém experimental, como deve ser a boa ciência. 

Sampaio demonstrou, até agora, que, no ambiente controlado — o laboratório —, a poliaminina, sob determinadas condições descritas no estudo, pode restaurar lesões medulares.  E isso é incrível, um excelente resultado de décadas de esforço mesmo com os cortes orçamentários dos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Confirmem-se ou não os desfechos esperados, Sampaio e equipe já são dignos de reconhecimento e comemoração. Afinal, toda pesquisa séria gera conhecimento. 

Mas a atenção despertada pelo estudo da bióloga rapidamente deixou os "críticos" de cabelo em pé. De uma hora para outra, "especialistas" e cientistas esqueceram de que estudos experimentais são uma prova de conceito e, por isso, dispensam o tal controle (a comparação com os pacientes que não recebem o tratamento), uma exigência das etapas clínicas, posteriores. 

A arrogância com a qual alguns acadêmicos estão tratando a pesquisa de Tatiana Sampaio levanta dúvidas de até que ponto há mesmo uma preocupação com o desenho do estudo ou se isso é puro recalque. 

O conhecimento mínimo em ciência livra os leitores/espectadores de promessas que não foram feitas pelo pesquisador e de ataques injustos contra ele. Só que, tradicionalmente, o Brasil não faz divulgação científica — vide o número pífio de museus de história natural e as iniciativas tímidas de mostrar que a ciência está em absolutamente tudo, do remédio que tomamos ao suflê de batatas que cozinhamos. Para formar cidadãos críticos, capazes de compreender os desafios e as maravilhas do conhecimento, precisamos muito mais do que ensinar a criança a plantar feijão no algodão ou promover feiras de ciências para os alunos ganharem uns pontos a mais na nota final.

 


Mais Lidas