ARTIGO

A mulher não é um homem que veio com defeito

Além de legislação forte que proteja as mulheres, precisamos de projetos de educação que ensinem, desde muito cedo, que não há hierarquia entre os gêneros

Mulheres violência 07/12 -  (crédito: Caio Gomez)
Mulheres violência 07/12 - (crédito: Caio Gomez)

Roberto Livianu procurador de Justiça do MPSP, idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção (Inac)), doutor em direito pela USP; Nathalie Kiste Malveiro procuradora de Justiça do MPSP, ex-integrante do Conselho Superior, mestranda em direito penal pela USP

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

 

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Em julgamento lamentável em Minas Gerais, não obstante há décadas se tenha consolidado a súmula 593 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo a qual a experiência sexual ou namoro não afastem o crime de estupro de vulnerável, entendeu-se que um homem de 35 e uma menina de 12 poderiam realizar sexo consensual não criminoso, estuprando-se a dignidade humana da vítima.

O STJ, corte do qual o ministro Marco Buzzi está afastado em razão de denúncias de importunar sexualmente duas mulheres — uma moça de 18, filha de um casal de amigos, e uma funcionária terceirizada do Tribunal—, discute, um caso do Paraná, se o "relacionamento" de três semanas de um homem com uma menina de 12 anos merece ser considerado crime. Será contradição de valores interna existencial ou cinismo relacionado à modernidade líquida de  Zygmunt  Bauman?

A prisão do ex-príncipe Andrew, que manchou para sempre a história da realeza britânica, ocorreu por estar envolvido com a rede espúria de Jeffrey Epstein, que tem ramificações que desafiam os limites da globalização. O universo de pessoas envolvidas com Epstein e sua magnitude de poder é impressionante, assim como o nível superlativo de coisificação da mulher no seu asqueroso esquema que fornecia jovens como se fossem produtos fast food de prateleira ao gosto do freguês.

No Brasil, notícias de festas, com a presença de banqueiros, políticos e empresários, onde são oferecidas moças russas e ucranianas para entretenimento deles nos atordoam. Mulheres belas que não entendem o idioma, já que não estão ali para conversar.

Algumas semanas atrás, uma tragédia que não é inédita fez com que Itumbiara se tornasse o centro de atenções do país. O homem, secretário municipal, inconformado com a separação, descobrindo que a ex-esposa iniciava um novo relacionamento, tirou a vida dos dois inocentes filhos, de 12 e 8 anos, e se suicidou para que ela pagasse publicamente o preço do que, para ele, seria uma traição, humilhando-a e destruindo-a moralmente da maneira mais vil e profunda pela via da execração machista.

Nas quartas de final do campeonato paulista de futebol, as duas primeiras partidas disputadas foram muito bem apitadas por mulheres. No jogo vencido pelo São Paulo, um dos jogadores da equipe local vencida — Red Bull Bragantino — declarou que não adiantava jogarem contra grandes equipes se, em jogos daquele quilate, mulheres fossem escaladas para apitar, como se a masculinidade garantisse eficiência na arbitragem.

Esses temas que nos atravessaram nas últimas semanas são ligados por um mesmo fio condutor do patriarcado,  um  sistema que sustenta a misoginia e que está no centro de todos esses episódios e dos índices assustadores de violência contra a mulher. Não há solução simples para um problema complexo e multifatorial.

 Meninos são ensinados desde cedo a odiar o que se relaciona ao feminino, desde o cor-de-rosa até as tarefas da casa. São ensinados que os piores xingamentos são aqueles que afetam sua masculinidade, comparando-os com meninas. A violência contra as mulheres, que explode em quatro feminicídios por dia, começa nas piadinhas machistas, nos comentários depreciativos, na objetificação do corpo feminino, na exclusão de mulheres de determinados ambientes.

Do jogador de futebol que justifica a derrota criticando a juíza de futebol; dos desembargadores que admitem que relações sexuais entre um homem de 35 anos e uma menina de 12 são aceitáveis; afinal, este é o papel da menina na sociedade; dos banqueiros e empresários que trazem mulheres estrangeiras para servirem ao seu deleite; afinal, melhor que não entendam o idioma porque não estão lá para serem ouvidas; ao ex-marido que, frustrado com a própria capacidade de manter uma família, a destrói; afinal, a família era sua e dela ele pode dispor, a violência de gênero se faz presente. 

São séculos de misoginia reverberada, partindo da premissa monstruosa de que o gênero masculino é superior ao feminino. Além de legislação forte que proteja as mulheres, precisamos de projetos de educação que ensinem, desde muito cedo, que não há hierarquia entre os gêneros. Afinal, como afirmou magistralmente a acadêmica Rosiska Darcy, em conferência no Projeto Ética Imortal do  Instituto Não Aceito Corrupção (Inac), a mulher não é um homem que veio com defeito.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 25/02/2026 06:00
x