Esporte

O recado de Lucas Braathen

"Nada é impossível, não importa onde você está, suas roupas, cor da pele, o que importa é o que está aqui dentro. Esquiei com a força brasileira aqui no coração"


A inédita medalha de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno protagonizada pelo esquiador Lucas Pinheiro Braathen, celebrada na visita do norueguês naturalizado brasileiro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, deixa um recado importante contra os recorrentes discursos xenófobos.
Temos oito treinadores estrangeiros na Série A do Brasileirão e um na Seleção para a Copa de 2026. No ano passado, sentimos vergonha alheia dos técnicos Émerson Leão e Oswaldo de Oliveira. Ambos criticaram o italiano Carlo Ancelotti. Detonaram a “invasão de profissionais importados” na bolha do mercado deles. Esqueceram-se de que colecionam passagens por times do exterior.
O Brasil será comandado pela primeira vez por um técnico estrangeiro na Copa. Há quem considere absurdo. A Inglaterra irá ao Mundial sob o comando do alemão Thomas Tuchel. Foi liderada pelo sueco Svan-Goran Eriksson em 2002 e em 2006; e pelo italiano Fabio Capello em 2010. O Uruguai confia no argentino Marcelo Bielsa. Portugal delegou a prancheta ao espanhol Roberto Martínez.
Lucas Pinheiro Braathen nasceu em Oslo. É filho da brasileira Alessandra. Conquistou o Brasil menos pela cor da pele, do passaporte ou da medalha — e mais pelo sincero discurso dourado depois de triunfar no slalom gigante em 2min25s. “Nada é impossível, não importa onde você está, suas roupas, cor da pele, o que importa é o que está aqui dentro. Esquiei com a força brasileira aqui no coração. Sou um esquiador brasileiro que virou campeão olímpico”, disse o atleta.
O esporte olímpico ensina faz tempo a respeitar atletas e técnicos estrangeiros. O croata Aleksandar Petrovic comanda a seleção masculina de basquete. A estadunidense Pokey Chatman é a dona da prancheta do time feminino. A ginástica olímpica evoluiu na passagem do ucraniano Oleg Ostapenko e segue em ascensão com Iryna Ilyashenko.
O dinamarquês Morten Soubak levou o Brasil ao título inédito no Mundial Feminino de Handebol em 2013. A neozelandesa Crystal Kaua lidera a Seleção feminina de rúgbi seven. O espanhol Jesús Morlán desenvolveu a canoagem. A britânica Jo Manning lidera nosso time de bobsled nos esportes de neve.
Que Lucas Pinheiro Braathen seja um marco na nossa luta e na de outros países e povos contra a xenofobia. “O Brasil me deu liberdade de me expressar da melhor forma”, afirmou no Palácio do Planalto.
Lula parece ter entendido o recado. Em 2023, foi contra a contratação de Carlo Ancelotti para assumir a Seleção. Neste mês, sugeriu até que ele assuma o Corinthians. Agora, pega carona no êxito do campeão. “Você pode ter certeza que é mais brasileiro do que muita gente que mora no Brasil e não tem orgulho desse país”, afirmou o presidente.
Por menos discursos de conveniência e mais personagens autênticos como Lucas Pinheiro Braathen, engajados na nossa luta diária contra a xenofobia e qualquer tipo de discriminação.
 

 

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