ARTIGO

4 (ou 16 anos) de invasão russa na Ucrânia: triste aniversário

Enquanto as análises geopolíticas tentam explicar o mundo através de grandes recortes de tecido — as esferas de influência e os tratados internacionais —, não vemos os indivíduos que tentam viver no meio de tantos traumas e medos

PRI-0103-OPINI -  (crédito: maurenilson)
PRI-0103-OPINI - (crédito: maurenilson)

» DANIEL A. DE AZEVEDO, Professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)

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Esta semana marca uma data sombria: completam-se quatro anos desde que os tanques russos cruzaram as fronteiras para a invasão em larga escala do leste ucraniano. Essa data é apenas a segunda etapa de uma ferida muito mais antiga. A guerra, de fato, não começou em 2022; ela é o desdobramento violento do que o mundo assistiu, com uma passividade que hoje custa caro, na invasão e ocupação da Crimeia, em 2014. Muitas reflexões estão sendo feitas na mídia sobre esse triste quarto aniversário. Por isso, escolho não fazer uma análise geopolítica acadêmica dura. Este não é um texto acadêmico; é um manifesto humanitário.

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Como professor de geografia política, o que mais tem me causado desconforto nos últimos anos é ouvir de alunos e colegas tentativas de justificação e legitimação da invasão russa na Ucrânia. O que constrói nossa interpretação sobre a guerra dos outros? Como o onde estamos, nossa localização distante, afeta na percepção sobre essa guerra?

Em pesquisa na Alemanha por seis meses, Berlim me colocou diante de uma realidade que as salas de aula no Brasil não alcançam. Esse é o país que, segundo a Acnur, mais recebeu refugiados ucranianos. Em um café em 27 de fevereiro de 2026, decidi ouvir quem vive isso diretamente e tive uma conversa com Kateryna Francu, ucraniana que saiu de lá anos depois da invasão à Crimeia.

Ela tem 36 anos e carrega a história da família consigo. Enquanto conversávamos, estendeu-me fotografias de seus bisavós, avós e pais. Todos da mesma terra, da mesma vila. "Existimos há muito tempo. Moramos há gerações no mesmo chão, por isso tenho essas fotos", diz Kateryna, confrontando a narrativa de que seu país seria uma invenção política recente. Mas o que mais me impressionou não foram os nomes, foi o silêncio. Recentemente, no curso onde a conheci aqui na Alemanha, pediram que ela respondesse a uma pergunta em russo. Ela se recusou. Não por ignorância — ela cresceu com o idioma —, mas por uma asfixia ética. "Sinto o russo travado na garganta", confessou-me. Ela conta que, até 2013, o russo era uma língua também do cotidiano, das músicas, do cinema. Após a ocupação da Crimeia, o idioma passou a ser visto como ferramenta de um projeto imperialista. Para ela, a língua é a fronteira final. Language is a border, ela me disse. Falar ucraniano tornou-se um ato de resistência. Hoje, ela sorri com alegria ao perceber que começa a esquecer palavras em russo.

Kateryna despreza a expressão "conflito Russo-Ucraniano", preferindo "ocupação" ou "invasão". E o que mais a machuca é o cinismo intelectual do "precisamos ouvir os dois lados". "Como pode haver dois lados quando um apenas invade e o outro tenta não desaparecer?", questiona. Para ela, o argumento russo de que estaria se defendendo da Otan é uma inversão perversa: "Por que não invadiram os bálticos quando eles entraram na Otan? Por que esses países entraram na Otan? Lituânia, Letônia e Estônia sabem, melhor que ninguém, que a defesa é a única resposta contra um vizinho que só entende a linguagem do Império".

O trauma que ouvi naquele café não é apenas político, é biológico. Kateryna descreve um estado de medo que se transformou em depressão e ansiedade crônicas. Ela sente que perdeu o direito à felicidade. Se viaja, não tira fotos. Se come bem em Berlim, sente culpa porque em Kiev não há eletricidade. "Antes eu passava maquiagem no rosto. Hoje, eu não quero ser vista", diz, baixando o olhar. A dor é hereditária. Ela me contou de sua avó, que na era soviética foi proibida de sair da vila para estudar porque o regime precisava de braços para o campo. Contou do primo de segundo grau e do amigo que morreram nesta fase atual da guerra. "O desaparecimento é o pior", diz com lágrimas nos olhos, referindo-se a pessoas que sumiram.

Comentei com ela que é comum encontrarmos pessoas ainda muito tolerantes com a experiência soviética em diferentes partes do mundo, como no Brasil. Berlim é um exemplo extremo disso: aqui, o turismo mercantilizou o totalitarismo, vendendo a estética da URSS a poucos metros dos memoriais do Muro. Sua resposta foi um soco: "É a distância. Do tempo, com os jovens que não viveram aquilo e idealizam; e do espaço, com pessoas tão distantes das atrocidades, que relativizam. É mais fácil aliviar o totalitarismo em prol de um suposto ideal quando se está longe. As pessoas sabem dos Gulags? Do Holodomor?". Para essa mulher, o passado soviético não é um capítulo encerrado. Ela vê a Rússia atual não como um Estado moderno, mas como um desejo anacrônico de retorno ao "Grande Império".

Terminamos a conversa falando de futuro. Kateryna mencionou a canção que representa a Ucrânia no Eurovision de 2026, Leleka, de Ridnym. A letra diz: "Eu vou costurar, costurar / Eu vou costurar um novo destino / Eu vou costurá-lo para os meus entes queridos". Essa imagem da costura me acompanhou ao sair do café. Percebi que, enquanto as análises geopolíticas tentam explicar o mundo através de grandes recortes de tecido — as esferas de influência e os tratados internacionais —, não vemos os indivíduos que, como ela, tentam viver no meio de tantos traumas e medos. 

Essa mulher é a prova de que a geografia que realmente importa neste quarto ano de invasão não é a dos mapas de gabinete, mas a das cicatrizes. Sua recusa em falar russo, sua memória guardada em fotos e sua culpa por estar feliz nos impedem de transformar a tragédia em estatística.

 

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Por Opinião
postado em 01/03/2026 04:52
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