GUERRA NO ORIENTE MÉDIO

O refrão do nosso tempo

Em meio a bombardeios contra o Irã e a uma sucessão de violências cotidianas, o otimismo surge como resistência e recusa à apatia diante de um mundo em guerra

Imagens dos ataques no Irã neste sábado (28/2)       -  (crédito: AFP)
Imagens dos ataques no Irã neste sábado (28/2) - (crédito: AFP)

Som de bomba virou estribilho. É o refrão da desumanidade, aquele que se repete, grudando no ouvido. Faz parte da playlist essencial deste lapso temporal da história que tem Trump e outros senhores da guerra como maestros de uma orquestra de horrores. Acordamos mais uma vez com ataques, desta vez contra o Irã. Não entro nem no mérito das justificativas porque, a meu ver, a decisão por uma guerra é sempre a escolha errada, porque mata inocentes, destroi economias e memórias, obriga a êxodos e separações, causa traumas, entre outras consequências terríveis.

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Mais uma guerra é mais um indício de um estado de insanidade, provocado por vaidade, adoração pelo poder, supervalorização do dinheiro. Eu sinto pairando no ar uma certa abstração, um rompimento coletivo com valores que pareciam perenes.

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A verdade virou artigo de luxo, e daqui a pouco, com a IA ao alcance de todos, só iniciados saberão distinguir o que é fato do que é mentira. A violência contra a mulher, apesar de todos os esforços, parece ter explodido como nunca. Meninos mortos a pancadas, socos, e outros filmando, se divertindo, incentivando. Desembargadores justificando o comportamento de estupradores. Essa é uma lista horrenda de guerras cotidianas. Não precisávamos de mais um abalo bélico. Mas esta é nossa realidade atual.

Nós não podemos aceitar anestésicos para conviver com isso. Eu recuso, mas também não aceito perder o otimismo. Não sei exatamente aonde o meu otimismo me levará, mas desconfio que não seja para a porta do inferno. Descobri que, de alguma forma, ser otimista é o que me salva todos os dias. Onde eu busco? Nas pequenas e grandes vitórias cotidianas.

Fiquei muito esperançosa depois dos dois eventos que fizemos no Correio Braziliense destinados ao combate à violência doméstica. Tanta gente junta debatendo e buscando soluções. Fiquei muito, muito otimista ao ver o afastamento do desembargador que soltou o estuprador de uma garota de 12 anos. Poderia citar outras situações que sopram um vento de esperança aqui na minha direção.

Quando acordei com notícias de bomba e guerra, escolhi outra trilha sonora para o meu dia. Lembrei-me de imediato da canção Sonho Impossível, versão de The Impossible Dream, imortalizada na voz de Maria Bethânia. Uns trechinhos: "Sonhar mais um sonho impossível/Lutar quando é fácil ceder/Vencer o inimigo invencível/Negar quando a regra é vender…"; "É minha lei, é minha questão/Virar esse mundo, cravar esse chão/Não me importa saber se é terrível demais/Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz…".

Nós não podemos viver sob efeito da apatia e ver normalidade em muitas coisas que estão acontecendo agora. Meu lema é combater o bom combate, sem perder a ternura e a alegria. Perder o otimismo é perder a força que faz tudo mudar, a coragem de se posicionar, de buscar soluções. Eu estou dando um jeito de alimentar minha esperança. Sugiro que você dê comidinhas para a sua também. Porque será um ano difícil, e o mundo está em guerra. Precisamos escolher nossas armas.

 

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postado em 01/03/2026 04:00
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