ARTIGO

Brasil e Argentina

O Mercosul é para que cresçamos juntos, e não para empobrecermos juntos. Quando vejo que as relações do Brasil e da Argentina estão em crise, fico apreensivo, mas sei que logo passará

. -  (crédito: Reprodução/Freepik)
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José Sarneyex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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O Congresso, Câmara e Senado, aprovou o acordo comercial do Mercosul com a Comunidade Europeia. Embora ainda pendente da aprovação pelo Parlamento Europeu — mas com efeito parcial garantido pela Comissão Europeia —, o resultado dessa junção é a grande ampliação que passamos a ter do nosso mercado, que vai atingir oitocentos (ou mais quinhentos) milhões de pessoas, mais da metade com alto poder aquisitivo. Os países que compõem o Mercosul, assim, passam a ter um patamar que nos assegura uma grande participação no mercado mundial. Brasil e Argentina, os dois maiores países do grupo, passam a ter uma responsabilidade muito grande ao liderar essa participação da América do Sul.

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Nossos países precisam estar unidos e o máximo possível ter posições conjuntas. Tenho afirmado sempre da minha luta pela união e integração do Cone Sul, que a única coisa que o homem não pode mudar é a geografia. Estamos juntos e estamos condenados — ou salvos — a viver juntos eternamente.

Aquele que perde a memória histórica arrisca-se a repetir erros do passado. A história das relações entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai foi marcada pelos desencontros. A questão do Prata, como caminho dominante do centro da América do Sul, criou rivalidades e alimentou disputas que chegaram até nossas gerações.

Ao chegar à Presidência, eu levava a decisão firme de iniciar nova etapa das relações entre o Brasil e os demais países do Cone Sul. Isso aconteceu. As relações do continente mudaram, e devemos crescer juntos e juntos caminhar para o desenvolvimento. Lembremos uma vez mais Saens Pena, quando disse: "Tudo nos une, nada nos separa".

Enviei a Buenos Aires, dois meses depois de assumir, meu ministro das Relações Exteriores, Olavo Setúbal. Tinha pressa. Queríamos estabelecer uma grande mudança. Nasceu meu encontro com Raúl Alfonsín, em Iguaçu, em novembro de 1985. Havia uma afinidade total em nossas visões. Ali conheci as virtudes extraordinárias desse homem, Estadista das Américas, grande patrimônio moral e político da Argentina.

Ele compreendia que deveríamos crescer juntos, mudar a história do continente, com a formação de um mercado comum entre nossos países. Alfonsín deu o primeiro passo importante para mudar a imagem de nossas diferenças. Visitou Itaipu. Ficou apenas uma foto, que sepultou a fantasiosa guerra das águas do Paraná.

Assinamos acordos básicos, inclusive o primeiro na área nuclear. Necessitávamos suprimir essa tentação de alguns setores militares de nossos países, a tentação do brutal, que seria uma corrida nuclear no Cone Sul. Depois, Alfonsín levou-me a Pilcaniyeu, e eu o trouxe a Aramar, locais onde cada um processava urânio. Ele inaugurou a nova usina brasileira, até então mantida em segredo, sob a jurisdição de nossa Marinha de Guerra.

O Uruguai, sob a liderança iluminada de Julio María Sanguinetti, juntou-se logo, e depois o Paraguai, assim que aderiu aos princípios democráticos. 

Nosso ideal era seguir o exemplo do mercado comum europeu (a União Europeia se formou mais tarde, em 1992): integração econômica, estratégica, política e cultural.

Na Europa, há 75 anos, essa solução começou com o acordo sobre o carvão e o aço. Nosso projeto seria, também, por setores. Deveria dar passos firmes, para evitar retrocessos e frustrações. Estabelecemos um programa. 

Onde nos equivocamos? No meu modo de ver, quando em julho de 1990, com os novos presidentes, os quatro países decidiram mudar os rumos e priorizaram a união aduaneira. Agora temos que voltar ao projeto inicial do mercado comum.

Os problemas que surgiram, que aparecem e crescem a toda hora, exigem dos envolvidos capacidade e paciência para negociar e uma decisão política firme de avançar e não retroceder. Sejamos vigilantes nessa direção. A economia é o transitório. O permanente são os ideais que nos uniram.

O balanço dos anos que vão da Ata de Foz do Iguaçu e a criação do Mercosul a nossos dias tem resultados positivos extraordinários. Mas nunca foi tão necessária a criação de espaços geopolítico-econômicos para aumentar o poder de competência e de defesa frente à concentração de riquezas, em um mundo globalizado.

O Mercosul é para que cresçamos juntos, e não para empobrecermos juntos. É para criar uma poderosa plataforma de exportação e para participarmos firmemente da economia mundial.

Tenho uma imensa admiração pela Argentina, pelo seu povo, pela sua história, pela sua literatura. Quando vejo que as nossas relações estão em crise, fico apreensivo, mas sei que logo passará.

 Agora, com nosso acordo com a União Europeia, mais do que nunca, devemos caminhar juntos e crescer juntos.

 

 

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Por Opinião
postado em 06/03/2026 06:00
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