ELEIÇÕES 2026

Nem lulista nem bolsonarista: o eleitor "cético" vai decidir a eleição em outubro

Militância já não garante vitória. Capacidade de dialogar com quem pensa diferente será o fator decisivo nas urnas em outubro

"Em uma disputa presidencial que já começa a desenhar contornos competitivos, com empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, falar para além da própria bolha deixou de ser apenas recomendável. Tornou-se condição básica para vencer eleições" - (crédito: Whisk/Google IA)

Em meio a um noticiário dominado pela guerra no Oriente Médio, pelo avanço das investigações sobre a teia política ligada ao Banco Master e pelas movimentações eleitorais domésticas, um dado da mais recente pesquisa Genial/Quaest merece atenção especial: o eleitor independente (que não se considera nem esquerda nem direita) se firmou como o maior bloco político do país. É praticamente uma a cada três pessoas. E em uma disputa presidencial que já começa a desenhar contornos competitivos, com empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, falar para além da própria bolha deixou de ser apenas recomendável. Tornou-se condição básica para vencer eleições.

As próximas semanas serão marcadas por uma movimentação típica de ano eleitoral. Até 4 de abril, governadores, prefeitos e ministros que desejam disputar cargos em outubro precisarão deixar os postos. É a chamada temporada de desincompatibilização, quando a política institucional começa a reorganizar o tabuleiro e os partidos ajustam estratégias. Ao mesmo tempo, as pesquisas de opinião ajudam a revelar tendências importantes sobre o comportamento do eleitorado.

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A Genial/Quaest mostra que os independentes representam, hoje, 32% dos eleitores, mais do que qualquer outro grupo isolado. São cidadãos que não se identificam nem como lulistas nem como bolsonaristas, nem com as versões mais amplas da esquerda ou da direita. É um eleitor que tem características bastante definidas. Consome informação principalmente pelas redes sociais, mas ainda mantém a televisão como uma fonte relevante. Demonstra elevado nível de desconfiança em relação aos políticos e tende a discordar de narrativas positivas sobre lideranças de qualquer espectro ideológico. A pesquisa mostra, por exemplo, que a maioria dos independentes não vê atributos como liderança, sensibilidade ou honestidade de forma clara nem em Lula nem em Flávio Bolsonaro.

Trata-se de um eleitor cético. E também distante. Entre 30% e 33% afirmam que podem votar em branco, anular ou simplesmente não comparecer às urnas. É um sinal inequívoco de desgaste da política tradicional. Mas também um lembrete de que, em eleições equilibradas, pequenos deslocamentos de opinião são capazes de alterar completamente o resultado.

Há outro aspecto relevante. Esse grupo não responde bem à lógica da militância. Campanhas baseadas apenas na mobilização das bases ideológicas tendem a reforçar convicções já existentes, mas pouco dialogam com quem observa a política com desconfiança. Falar apenas para convertidos pode garantir engajamento nas redes, mas dificilmente amplia votos.

À medida que a corrida eleitoral começar a ganhar forma, o principal desafio dos candidatos será convencer quem ainda não está convencido. Os independentes não formam apenas o maior grupo do eleitorado. Representam também a expressão mais clara de uma sociedade que observa a política com cautela e exige mais do que narrativas prontas. A ciência política sinaliza que, em uma democracia madura, esse tipo de eleitor é uma oportunidade, não um problema. Afinal, quando a política é obrigada a falar com quem pensa diferente, ela tende a melhorar. E, no fim das contas, é justamente desse diálogo que nasce a legitimidade das escolhas coletivas.

 


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postado em 13/03/2026 05:20
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