
» MIRUNA KAYANO GENOINO// Coordenadora pedagógica do espaço ekoa, mestre em escrita e alfabetização pela Universidade Federal de La Plata
Nos últimos dias, diante da divulgação de casos de violência de gênero, voltou ao debate público a afirmação de que é preciso ensinar aos meninos que eles não são donos das mulheres, o que significa, a partir do viés pedagógico, entender o que os episódios de violência que assistimos nos dizem sobre a necessidade de uma educação para a igualdade, desde a infância.
Primeiro, é necessário reconhecer que a prevenção da violência contra todas as pessoas, e em especial contra as mulheres começa na primeira infância. Não como discurso abstrato, mas como formação de valores que precisa de tempo e espaço nas práticas diárias. Respeito, limite e corresponsabilidade se aprendem nas relações, nas mediações e na forma como adultos organizam o cotidiano escolar.
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Com um olhar atento é possível identificar que os sinais de uma cultura desigual podem aparecer desde cedo. Meninos que recusam usar determinadas cores ou que evitam brincadeiras de cuidado por considerá-las "coisa de menina". Crianças que demonstram preocupação precoce com o que é ou não aceitável para seu gênero. Também podem surgir diferenças na ocupação dos espaços, por exemplo, a quadra que, por vezes, é dominada por meninos que performam uma masculinidade mais hegemônica, enquanto meninas e meninos que não se encaixam nesse padrão acabam por ocupar menos esse território.
Para que toda essa reflexão ocorra de forma aprofundada, porém é preciso considerar que antes de falar com as crianças, é preciso formar os educadores e educadoras que atuam com as crianças, tanto para analisar como este trabalho está inserido na programação pedagógica quanto para cada um olhar para si e pensar de que forma podemos avançar em um olhar igualitário para as turmas. Neste sentido, não basta exigir da escola que dê conta de uma formação de gênero, sem valorizar igualmente a formação de suas equipes pedagógicas.
Com formação e reflexão entre educadores e educadoras é possível compreender mais profundamente quais situações demandam este olhar específico e quais são parte do desenvolvimento infantil, já que nem todo conflito necessariamente relaciona-se apenas ao gênero, então generalizações apressadas não ajudam. Quando os padrões se repetem, aí sim, se torna papel da escola observar com cuidado e nomear o que acontece. Se as meninas são interrompidas com frequência, isso precisa ser explicitado. Se há maior tolerância à agressividade de meninos, isso precisa ser revisto.
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A mediação é central.No espaço ekoa, onde atuo como coordenadora pedagógica, rodas de conversa planejadas e acordos construídos coletivamente fazem parte do cotidiano. Esses combinados ensinam que a convivência é responsabilidade de todos. Não se trata de rotular, mas de transformar situações concretas em aprendizagem sobre respeito. Nos grupos multi-idade, por exemplo, e em projetos coletivos do ekoa, as crianças alternam papéis: ora ajudam, ora são ajudadas.Essa dinâmica fortalece empatia, cooperação e dilui hierarquias rígidas, contribuindo para relações mais igualitárias.
Empoderar meninas não significa colocá-las contra os meninos. Significa ajudá-las a reconhecer situações inadequadas, sustentar sua fala e ampliar seus horizontes. Ao mesmo tempo, educar meninos para o cuidado envolve dividir tarefas, incentivar o zelo pelos espaços comuns e legitimar o afeto. Permitir que chorem, que se abracem, que expressem sensibilidade sem que isso seja tratado como fraqueza.
Se a escola se limita aos conteúdos formais e ignora as dimensões relacionais, o custo aparece no futuro. Podemos formar estudantes academicamente competentes, mas despreparados para viver relações justas e respeitosas. A escola não é a única responsável, mas é um espaço privilegiado de formação social.
Ensinar que ninguém é dono de ninguém não é uma pauta ideológica. É uma escolha educativa. E começa quando uma criança aprende que o outro tem corpo, voz e vontade próprios.

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