Argigo

Dependência perigosa

Exportamos majoritariamente commodities primárias. Importamos bens industriais e tecnológicos de maior valor agregado. É uma relação funcional, porém estruturalmente desequilibrada

Mais de 60% da soja que exportamos tem como destino a China, além de participação relevante nas vendas de carne bovina, carne de frango e celulose. -  (crédito: reprodução)
Mais de 60% da soja que exportamos tem como destino a China, além de participação relevante nas vendas de carne bovina, carne de frango e celulose. - (crédito: reprodução)

Maurício Antônio Lopes, Pesquisador e ex-presidente da Embrapa

 

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O Brasil construiu, nas últimas duas décadas, uma relação comercial de enorme intensidade com a China. Em 2025, as trocas bilaterais somaram cerca de US$ 170 bilhões, consolidando o país asiático como nosso principal parceiro comercial. Desse montante, mais de US$ 100 bilhões corresponderam a exportações brasileiras destinadas à China, o que representou aproximadamente 28% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior naquele ano.

No agronegócio, a concentração é ainda mais expressiva: mais de 60% da soja que exportamos tem como destino a China, além de participação relevante nas vendas de carne bovina, carne de frango e celulose. Os ganhos foram expressivos, mas há riscos substantivos nessa relação. O problema não está na parceria em si, mas na sua assimetria estrutural e na ausência de estratégias consistentes de mitigação.

Exportamos majoritariamente commodities primárias. Importamos bens industriais e tecnológicos de maior valor agregado. É uma relação funcional, porém estruturalmente desequilibrada. Enquanto o Brasil se especializou em fornecer grandes volumes de produtos agropecuários, a China avança rapidamente em biotecnologia, agricultura digital, mecanização inteligente, inteligência artificial aplicada ao campo e cadeias industriais de alta complexidade.

A China não trata segurança alimentar como simples questão de mercado. É tema de soberania nacional. O país investe maciçamente em melhoramento genético, edição gênica, mecanização de precisão, agricultura protegida e integração entre dados, satélites e sistemas inteligentes. Ainda que a autossuficiência plena seja improvável, reduzir vulnerabilidades externas é objetivo explícito.  O fato é que o maior comprador de nossas commodities trabalha para depender menos delas

Além disso, Pequim vem diversificando fornecedores e ampliando investimentos agrícolas em diferentes regiões do mundo. Diversificação de origem é estratégia clássica de redução de risco e parte de planejamento de longo prazo. O Brasil também tem avançado na abertura e ampliação de mercados, com esforços importantes do setor público e privado nessa direção. Ainda assim, é legítimo perguntar se o ritmo dessa diversificação será suficiente, no médio e longo prazo, para reduzir de forma consistente a exposição a um único grande comprador.

Há ainda um vetor tecnológico que raramente entra no debate público: proteínas alternativas, agricultura celular, fermentação de precisão e outras plataformas de produção alimentar disruptivas. Se essas tecnologias atingirem escala econômica relevante na próxima década, parte da demanda global por grãos destinados à ração animal poderá enfrentar queda sustentada. Não é cenário imediato, mas é plausível. Ignorá-lo seria repetir erros históricos de países presos a vantagens comparativas estáticas.

Podemos imaginar três cenários para os próximos 10 a 15 anos. No primeiro, a China mantém elevado nível de importações e o Brasil continua como fornecedor dominante. No segundo, a China eleva produtividade interna e diversifica origens, reduzindo gradualmente sua dependência do Brasil. No terceiro, inovações disruptivas alteram a própria estrutura da demanda global por grãos e proteínas. O Brasil parece preparado apenas para o primeiro cenário.

A concentração comercial não é apenas uma questão setorial ou macroeconômica. Ela afeta câmbio, arrecadação, investimento e estabilidade das contas externas. Uma redução relevante nas compras chinesas de soja, por exemplo, teria impacto direto sobre o superavit comercial e a disponibilidade de divisas, mas também pressionaria preços internos, margens e capacidade de pagamento no campo.

Produtores altamente especializados poderiam ser forçados a reconverter sistemas produtivos, redirecionar fluxos logísticos e rever decisões de investimento. Quando um único destino exerce influência tão intensa sobre uma cadeia produtiva, o tema deixa de ser apenas comercial e se torna estratégico, com implicações econômicas e sociais amplas.

A resposta não está em reduzir relações com a China, mas em reposicioná-las em bases mais equilibradas e estratégicas.  O Brasil precisa diversificar mercados, agregar valor às cadeias agroindustriais, investir de forma mais robusta em biotecnologia própria, fortalecer sua indústria vinculada ao agro e ampliar presença em segmentos de maior intensidade tecnológica. Liderança em produção de biomassa precisa se converter em liderança em bioindústria, bioenergia e bioeconomia.

A relação Brasil-China seguirá central para a economia brasileira em múltiplas dimensões — comercial, tecnológica, energética e financeira. A questão não é sua relevância, mas sua configuração. Ela poderá evoluir para uma parceria mais equilibrada, com cooperação em inovação, agregação de valor e maior simetria tecnológica, ou consolidar um padrão de especialização que amplie vulnerabilidades estruturais ao longo do tempo. O debate, portanto, não é conjuntural. É uma discussão sobre o lugar do Brasil na economia global nas próximas décadas.

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postado em 16/03/2026 06:00
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