Artigo

Fábrica de feminicidas

O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação

Opinião 1803 -  (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)
Opinião 1803 - (crédito: Caio Gomez/CB/D.A Press)

CRISTOBAM BUARQUE, professor emérito da Universidade de Brasília (unB)

O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação

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Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas que respeitam pedestres quando esses desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem essa postura: nasceu de uma campanha educativa. 

Ao longo de alguns meses, em cada faixa foram colocados conscientizadores, com incentivos e mimos aos motoristas que demonstram civilidade. Outros motivadores foram as escolas: as crianças se empolgaram com a ideia e passaram a pressionar pais, mães e responsáveis para que respeitassem os pedestres.

A vergonha do feminicídio precisa ser enfrentada com punição dos bandidos, condenação a anos de cadeia e desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina mulheres. A ferramenta imediata para barrar os criminosos da violência contra a mulher é a repressão pela Justiça, pela Polícia e pelo Ministério Público. Mas a guerra contra o machismo não será vencida sem campanha educacional dirigida a todos desde a infância, sobretudo aos meninos.

Os feminicidas decorrem da perversão de milhões de homens que cometem atos machistas e violências contra mulheres e, por fim, a maldade absoluta do feminicídio. Poucos dos meninos que na escola puxam cabelos, fazem bullying, insistem em aproximações recusadas ou expressam ideias de superioridade sobre as colegas meninas tornam-se violentos contra mulheres; mas certamente todos os feminicidas começaram com comportamentos machistas tolerados por parecerem leves, desde quando eram meninos ou adolescentes, anos e décadas antes do feminicídio.

O destino dos facínoras que cometem violência contra mulheres — desde mensagens impróprias até o feminicídio — deve ser a punição. Mas a sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas crianças em horário integral e incluir, em todas escolas, conteúdo humanista que ensine o respeito às meninas. Para os atuais agressores de mulheres, é preciso punir duramente e tirá-los do convívio social; mas, para formar uma consciência humanista na sociedade, especialmente entre os homens, é preciso escola de qualidade pedagógica e conteúdo humanista para todos.

Comemoramos que depois de quase meio século de democracia, praticamente, universalizamos a matrícula, relegando o fato que matrícula não é frequência, que não é assistência, que não é permanência, que não é o aprendizado necessário para os tempos atuais, inclusive criando consciência de solidariedade entre os seres humanos e deles com a natureza. As crianças não permanecem seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11 anos de suas vidas, em escolas que despertam entusiasmo, esperança e respeito ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças, dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito pleno às mulheres.

Muitos dos mais violentos feminicidas passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que recentemente cometeram estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a instruir, sem dar formação ética.

A escola, por melhor que seja, terá eficácia limitada se a "escola fora da escola" trabalhar na direção oposta: quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar; discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.

O Brasil precisa fechar a fábrica de feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país que deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou escola sem humanismo.

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Por Opinião
postado em 18/03/2026 06:04
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