Guilherme Frizzera — doutor em relações internacionais pela UnB e coordenador de relações internacionais na Uninter
A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã costuma ser analisada pelos aspectos mais imediatos. Discute-se dissuasão, capacidade militar e risco de ampliação da guerra no Oriente Médio. Esse foco é compreensível. Ainda assim, a crise revela algo mais amplo sobre a forma como o poder opera no sistema internacional. O episódio ajuda a entender como os países atuam em um ambiente marcado por interdependências profundas e por relações que nenhum governo controla por completo.
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O caso do Brics ajuda a iluminar esse cenário. O grupo reúne economias do Sul Global e busca ampliar seu espaço de atuação na governança global. Ainda assim, a guerra atual mostrou como essa coordenação pode se tornar delicada. O Irã integra o agrupamento. Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita participam das atividades. Outros membros mantêm laços estratégicos com Washington ou com Israel. Diante desse quadro, não surgiu uma posição comum após os bombardeios e as retaliações. Não é falta de vontade. É estrutural.
Esse silêncio vai além da cautela diplomática e reflete a inserção desses países no sistema internacional. O Brics não é uma aliança de segurança. É um espaço de articulação entre países que buscam ampliar sua margem de atuação em um sistema que não controlam plenamente. A convergência é possível em temas econômicos e institucionais. A coordenação se torna mais difícil quando crises militares alteram o conjunto de relações em que esses países estão inseridos.
A guerra no Golfo Pérsico evidencia esse limite. Países que cooperam em várias agendas podem ter percepções distintas sobre conflitos regionais. Cada governo precisa considerar suas relações comerciais, suas parcerias políticas e suas preocupações de segurança. Essas relações formam um ambiente de interdependência que condiciona as escolhas possíveis. Em um mundo organizado por fluxos financeiros, energéticos e tecnológicos, o poder depende menos de capacidades isoladas e mais da posição que cada país ocupa nas redes que estruturam essas relações. O resultado costuma ser uma diplomacia cautelosa, que preserva vínculos e evita rupturas.
Esse quadro revela mudanças importantes no funcionamento do sistema internacional. A política global já não se organiza só por alianças rígidas ou blocos definidos. Muitos Estados participam de diferentes fóruns e mantêm relações com vários centros de poder ao mesmo tempo. Um país pode cooperar economicamente com um parceiro, negociar tecnologia com outro e, ao mesmo tempo, manter diálogo político com diferentes atores.
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Nesse ambiente, a autonomia externa assume um significado distinto daquele imaginado em períodos anteriores. Ela não depende do isolamento. Depende da gestão de vínculos em um ambiente de assimetria. Autonomia passa a significar a capacidade de administrar relações diversas e de ajustar conexões dentro dessas redes. Potências médias procuram preservar espaço de decisão ao diversificar vínculos e evitar compromissos automáticos em disputas entre grandes potências.
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã torna essa lógica mais visível. Coalizões amplas conseguem articular posições sobre comércio, financiamento ou governança internacional. Já a coordenação diminui quando crises militares entram em cena, pois os vínculos externos de cada país passam a influenciar suas escolhas.
O episódio revela um paradoxo do momento atual. O peso econômico e político do Sul Global cresceu nas últimas décadas, e novas plataformas de cooperação ampliaram o espaço de articulação entre esses países. Ainda assim, esses arranjos mostram limites quando precisam lidar com crises internacionais que atingem diretamente alguns de seus membros.
A guerra no Oriente Médio não desafia apenas o equilíbrio regional. Ela também revela aspectos da política internacional em um sistema mais interdependente e menos previsível. Países cooperam em várias frentes e preservam margens próprias de decisão. A ordem que emerge desse processo não se organiza em blocos rígidos. Ela se forma em redes de relações nas quais a autonomia depende da capacidade de navegar interdependências que nenhum Estado controla plenamente.
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