» JOSÉ SARNEY//Ex-presidente da República e escritor imortal da Academia Brasileira de Letras
Li na Folha de S. Paulo (onde escrevi uma coluna durante 20 anos, às sextas-feiras, o que me remete à saudade do meu grande amigo Octávio Frias), uma crônica muito gostosa de ler da escritora e dramaturga Becky S. Korich, A performance brega do novo milionário, em que faz uma gozação muito pertinente da ostentação dos super-ricos que esbanjam escandalosamente, agredindo nossa sensibilidade com festas ruidosas no exterior, gastando milhões de reais para pedidos de noivado e casamentos sucessivos com influenciadoras e influenciadas digitais para mostrar riqueza, com convidados em jatinhos e jatões, desfile de vestidos luxuosos e bolsas milionárias, que a jornalista diz ser "coisa brega". Só falta, para completar a comédia, a indelével música dos cafonas, de Waldick Soriano: "Eu não sou cachorro não".
Na verdade, o grande corruptor é o dinheiro. Ele aparece todos os dias na televisão ao lado das operações da consagrada Polícia Federal, que tem seu trabalho reconhecido por todo o país. Já apareceu até "acalentando" o sono de um deputado estadual do Rio.
Na verdade, o dinheiro vem desde a Antiguidade participando da história. Ele foi usado na armadilha dos fariseus a Jesus Cristo ao lhe perguntarem se era correto pagar tributo, a que Jesus respondeu: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Outra vez o dinheiro aparece nos Evangelhos corrompendo um dos apóstolos, Judas, que trai Jesus. E foi o dinheiro que mandou Judas à forca. Lembra ainda o padre Antonio Vieira que o diabo tentou Jesus com todas as riquezas oferecendo a Ele todo o mundo, dizendo: "Tudo isso será teu se me adorares". Para Vieira, se o diabo podia oferecer a Jesus todo o mundo e suas riquezas é porque o mundo era dele, do diabo. Assim podemos pensar que se o dinheiro invade e corrompe todos é porque é ele, o dinheiro, quem manda e resolve. Será?
Mas eu desejava falar era da verdade das palavras da escritora da Folha. Ela cita a última crônica de Fernanda Young, falecida em 2019, um "pequeno tratado sobre o mau gosto existencial brasileiro", como se Fernanda mandasse um recado do passado para o Brasil de hoje: "Existe algo mais brega do que um rico roubando?" E agora Becky conclui: "Rico é quem dorme tranquilo. Essa é a maior das riquezas".
A tranquilidade só existe quando o homem tem aquela paz que não é a ausência de guerra, mas a paz interior que nos aproxima da fortuna imensa de dormir tranquilo, sem o peso das falhas, que só trazem pesadelos.
Infelizmente, sob o manto da desgraça, o dinheiro invadiu as instituições, e a opinião pública está perdendo a confiança nelas. Mas pela experiência que tenho de Parlamento, observo que não podemos generalizar. Nas casas legislativas do país há homens e mulheres com espírito público que também condenam esse procedimento totalmente abominável.
Tenho uma visão abrangente porque o destino me proporcionou bastante tempo naquelas Casas gloriosas — senador por 40 anos, antes fui deputado federal, por 12 anos, suplente e efetivo desde 1955. Assisti, portanto, a muitos episódios da nossa história vividos pelo Parlamento: o suicídio de Getúlio Vargas; o Golpe do Lott, de 11 de novembro de 55, que possibilitou a posse de Juscelino; as revoltas de Jacareacanga e de Aragarças, comandadas pelos oficiais da Aeronáutica, tenente-coronel Veloso e major Lameirão, depois anistiados pelo presidente que queriam depor; a tentativa de evitar a posse do Jango em 1961 e, posteriormente, a sua deposição em março de 1964; o AI-5, em 1968, e a transição democrática, da qual fui protagonista, além de ter sido o primeiro civil presidente da República depois do período militar. Na Presidência, tive a oportunidade de viver as relações Executivo e Congresso, desse recebendo total apoio, o que assegurou a convocação da Assembleia Constituinte que nos deu a Constituição de 1988. Creio ter ajudado o país a ultrapassar muitos de seus momentos difíceis.
O domínio do dinheiro, senhor da corrupção, corroendo os Poderes está a merecer de todos um combate sem quartel, capaz de assegurar a moralidade pública, mas não somente com a ação penal, mas com um comportamento político mais austero, como antigamente existia. O caminho do sucesso político era a correção, a austeridade e o preparo — a ignorância sempre foi aliada dos malfeitos e da corrupção. E essa mácula ataca a classe política desde as bases fundamentais. Até mesmo Péricles, que imortalizou os princípios da democracia em sua Oração Fúnebre, enfrentou as calúnias políticas de seus opositores e teve que defender a integridade do ouro da estátua de Atenas!
A democracia não é atacada somente pelo desejo da tomada do poder, mas também pela corrupção generalizada.
