ARTIGO

Estamos vivíssimas — cada vez mais!

É uma constatação tristíssima perceber que, uma década depois de promulgada a Lei do Feminicídio, os números de violência contra mulheres escalam de forma assustadora. Essa é a prova cabal do quanto incomodamos cada vez mais

Sempre lembro de uma fala da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia em um evento no TSE no ano passado. "Não há democracia se não há respeito a todos os direitos de todas as pessoas. Uma sociedade que deixa matar suas meninas, violentar suas mulheres e que vê isso como se fosse um deboche ou brincadeira não é um país que se pode dizer que chegou a um Estado Democrático de Direito de efetividade jurídica e social", disse.  

A ministra tem sido uma voz retumbante e constante no trabalho em defesa das mulheres, inclusive na batalha para que militares acusados de violência contra a mulher sejam julgados na Justiça comum e não na Justiça Militar. A ela, todo o meu respeito e admiração. 

Há alguns dias, Cármen Lúcia relatou que soube de uma ameaça de bomba contra ela enquanto se dirigia a um evento no qual falou a estudantes de direito. Sem se intimidar, disse: "Agora de manhã, vindo para cá, comunicaram-me que mandaram uma bomba para me matar. Estou no meio de estudantes. Todos viram meus advogados em dois minutos. Pior para quem mandar. Melhor não mandar. E nem sei se é fato, sei que foi noticiado e que estão me ligando. Eu estou vivíssima, cada vez mais". E mais: "Parem de nos matar, porque nós não vamos morrer. Nós, mulheres, decidimos que não vamos morrer, embora os homens tenham decidido que vão nos matar". 

É uma constatação tristíssima perceber que, uma década depois de promulgada a Lei do Feminicídio, os números de violência contra mulheres escalam de forma assustadora. Essa é a prova cabal do quanto incomodamos cada vez mais. Porque não nos calamos, porque continuamos chegando a espaços de poder, porque denunciamos e porque nos unimos. Os machistas e misóginos não suportam sequer o confronto de ideias e estão dispostos a transferir aos jovens, como vemos no movimento redpill, o ódio que sentem por nossa existência e por nossa não submissão.

Avançamos passo a passo, embora a sociedade pareça muitas vezes retroceder, como observamos nas estatísticas. Por isso, não podemos parar o combate nem nos calarmos diante de qualquer violência sofrida ou presenciada. Aqui no Correio, continuamos despertas para sustentar a luta, somando vozes em iniciativas diversas. 

Na próxima terça-feira (24), a partir das 8h30, o CB Debate O Brasil pelas mulheres: formação para uma cultura de proteção, vai abrir mais um espaço de diálogo e reflexão sobre o papel da formação humana e das instituições na construção de ambientes mais seguros e igualitários, abordando estratégias de prevenção, políticas públicas, práticas educativas e iniciativas que contribuam para uma cultura de respeito e proteção às mulheres. O encontro será no auditório do jornal, com transmissão ao vivo no YouTube. As inscrições para participar presencialmente estão abertas e são gratuitas no site:  eventos.correiobraziliense.com.br/culturadeprotecaomulheres.

Estamos em ano eleitoral e percebemos a tentativa de acuar as mulheres que já conquistaram espaços de poder, a fim de prejudicar o exercício democrático de seus mandatos e cargos e de suas iniciativas em defesa das mulheres. Tudo isso nada mais é do que a tentativa de continuar nos oprimindo. Devemos estar lúcidas, evitar distrações, denunciar fake news, não engajar em perfis misóginos. Mais informação, menos distração. O que está em jogo é nossa sobrevivência, mas também a nossa democracia, que jamais será fato consumado sem a presença maciça das mulheres em espaços de poder. 

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html 

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