Sempre lembro de uma fala da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia em um evento no TSE no ano passado. "Não há democracia se não há respeito a todos os direitos de todas as pessoas. Uma sociedade que deixa matar suas meninas, violentar suas mulheres e que vê isso como se fosse um deboche ou brincadeira não é um país que se pode dizer que chegou a um Estado Democrático de Direito de efetividade jurídica e social", disse.
A ministra tem sido uma voz retumbante e constante no trabalho em defesa das mulheres, inclusive na batalha para que militares acusados de violência contra a mulher sejam julgados na Justiça comum e não na Justiça Militar. A ela, todo o meu respeito e admiração.
Há alguns dias, Cármen Lúcia relatou que soube de uma ameaça de bomba contra ela enquanto se dirigia a um evento no qual falou a estudantes de direito. Sem se intimidar, disse: "Agora de manhã, vindo para cá, comunicaram-me que mandaram uma bomba para me matar. Estou no meio de estudantes. Todos viram meus advogados em dois minutos. Pior para quem mandar. Melhor não mandar. E nem sei se é fato, sei que foi noticiado e que estão me ligando. Eu estou vivíssima, cada vez mais". E mais: "Parem de nos matar, porque nós não vamos morrer. Nós, mulheres, decidimos que não vamos morrer, embora os homens tenham decidido que vão nos matar".
É uma constatação tristíssima perceber que, uma década depois de promulgada a Lei do Feminicídio, os números de violência contra mulheres escalam de forma assustadora. Essa é a prova cabal do quanto incomodamos cada vez mais. Porque não nos calamos, porque continuamos chegando a espaços de poder, porque denunciamos e porque nos unimos. Os machistas e misóginos não suportam sequer o confronto de ideias e estão dispostos a transferir aos jovens, como vemos no movimento redpill, o ódio que sentem por nossa existência e por nossa não submissão.
Avançamos passo a passo, embora a sociedade pareça muitas vezes retroceder, como observamos nas estatísticas. Por isso, não podemos parar o combate nem nos calarmos diante de qualquer violência sofrida ou presenciada. Aqui no Correio, continuamos despertas para sustentar a luta, somando vozes em iniciativas diversas.
Na próxima terça-feira (24), a partir das 8h30, o CB Debate O Brasil pelas mulheres: formação para uma cultura de proteção, vai abrir mais um espaço de diálogo e reflexão sobre o papel da formação humana e das instituições na construção de ambientes mais seguros e igualitários, abordando estratégias de prevenção, políticas públicas, práticas educativas e iniciativas que contribuam para uma cultura de respeito e proteção às mulheres. O encontro será no auditório do jornal, com transmissão ao vivo no YouTube. As inscrições para participar presencialmente estão abertas e são gratuitas no site: eventos.correiobraziliense.com.br/culturadeprotecaomulheres.
Estamos em ano eleitoral e percebemos a tentativa de acuar as mulheres que já conquistaram espaços de poder, a fim de prejudicar o exercício democrático de seus mandatos e cargos e de suas iniciativas em defesa das mulheres. Tudo isso nada mais é do que a tentativa de continuar nos oprimindo. Devemos estar lúcidas, evitar distrações, denunciar fake news, não engajar em perfis misóginos. Mais informação, menos distração. O que está em jogo é nossa sobrevivência, mas também a nossa democracia, que jamais será fato consumado sem a presença maciça das mulheres em espaços de poder.
