Marcos Camargo — presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF)
A Polícia Federal chega aos 82 anos como uma das instituições mais respeitadas do país. Pesquisas recentes mostram que a PF lidera entre os órgãos com maior credibilidade junto à população. Esse reconhecimento não surgiu por acaso. É resultado de décadas de trabalho técnico, de enfrentamento ao crime e de construção institucional. Esse caminho foi feito por muitas mãos. Todos, servidores, colaboradores e estagiários, ajudaram, cada um à sua maneira, a consolidar a instituição como referência nacional. A perícia criminal federal faz parte dessa história.
O trabalho pericial, fruto da atuação dos peritos criminais federais, é, por sua vez, uma das bases de uma investigação. É ali que vestígios se transformam em prova, que evidências ganham consistência e que decisões deixam de depender apenas de narrativas para se apoiar em elementos técnico-científicos. Nos últimos anos, esse papel se tornou ainda mais relevante. O crime mudou, se sofisticou, passou a operar em rede e a exigir respostas cada vez mais estruturadas. Nesse contexto, a capacidade de produzir provas com qualidade e estrita observação à cadeia de custódia passou a ser um dos principais diferenciais das investigações e do processo penal.
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A criminalística da Polícia Federal tem avançado nessa direção. O Banco Nacional de Perfis Genéticos, por exemplo, já integra mais de 20 bancos estaduais, além do Distrito Federal e da própria PF. Coordenada por peritos criminais federais, a ferramenta vem permitindo o cruzamento contínuo de dados biológicos em escala nacional e a identificação de autores de crimes em diferentes regiões do país, já tendo auxiliado mais de mil investigações.
O desenvolvimento de ferramentas tecnológicas também é um ativo da perícia criminal federal. Exemplo importante é o Iped (Indexador e Processador de Evidências Digitais), que permite analisar grandes volumes de dados com eficiência, organizando milhares de arquivos e auxiliando ações cada vez mais dependentes de evidências digitais. Outros sistemas também merecem destaque, entre eles o Nudetective, projetado especificamente para auxiliar no combate à pornografia infantojuvenil, e o Peritus, ferramenta voltada à análise forense de evidências multimídia e à padronização de procedimentos periciais.
Já o Sistema Nacional de Análise Balística (Sinab), em operação em cerca de 40 laboratórios, reúne mais de 100 mil elementos de munição e já possibilitou a identificação de 7.420 ligações entre ocorrências, com cerca de 9.840 auxílios diretos a investigações policiais. Há ainda iniciativas como o Programa Ouro Alvo, que atua na identificação e interrupção de fluxos financeiros ilícitos, reforçando uma atuação que vai além da investigação tradicional e alcança as estruturas econômicas do crime. Os números também ajudam a dimensionar esse trabalho. A perícia criminal federal supera a marca de 50 mil laudos produzidos por ano.
Mas aniversários não servem apenas para celebrar. Servem também para refletir. A Polícia Federal que chega aos 82 anos é forte, respeitada e essencial. Mas também precisa continuar avançando. Isso exige investimento constante, atualização tecnológica, planejamento de longo prazo, além da valorização e do cuidado com o seu quadro funcional. Esses movimentos não são detalhes. São condições básicas para sustentar investigações sólidas e decisões seguras.
Nesse cenário, o debate sobre financiamento da segurança pública também precisa avançar. A destinação adequada de recursos é medida necessária para garantir continuidade, estabilidade e eficiência às políticas públicas na área. Também é preciso voltar os olhos para quem sustenta essa estrutura. A atividade policial é exigente, e olhar para as condições de trabalho, para a saúde e para o bem-estar dos servidores, além da necessária recomposição do efetivo e aproveitamento dos aprovados em concurso público, é parte da própria eficiência institucional.
A PF construiu, ao longo dessas oito décadas, algo que vai além das operações: construiu confiança. E confiança, uma vez conquistada, precisa ser sustentada no tempo. Celebrar os 82 anos da instituição é reconhecer o que foi feito. Mas é, sobretudo, lembrar que os próximos passos exigem o mesmo compromisso que trouxe a PF até aqui.
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