
Frederico Souza, Presidente do CNSecom (Secretaria de Comunicação do Mato Grosso do Sul)
Em um cenário de alucinantes mudanças tecnológicas e de hábitos de consumo de mídia, os governos, e falo de forma geral, Brasil e mundo, têm enfrentado grandes desafios para entregar uma comunicação pública capaz de responder aos seus deveres e preceitos constitucionais, e que se faça relevante e absorvível pela sociedade.
É fundamental que encontremos, na prática, um modelo de transição, uma vez que os números mostram o enorme desafio. Pesquisas de 2024 e 2025 indicaram que os brasileiros passam, em média, mais de nove horas por dia conectados, um dos maiores tempos de uso do mundo, com 183 milhões de pessoas conectadas. Só fica atrás da África do Sul, que lidera o ranking, mas à frente de países como Filipinas, Chile, Estados Unidos e Reino Unido. Os países com maior número de usuários são China (1,1 bilhão), Índia (806 milhões), Estados Unidos (322 milhões) e Indonésia (212 milhões). Somos o quinto.
Em janeiro de 2025, a penetração da internet no Brasil era de 86,2% da população, com a maioria acessando a rede por meio de dispositivos móveis. Dados do IBGE para 2024 indicam que 95,2% dos usuários de internet brasileiros a utilizam diariamente, com 98,8% por meio do celular. O país também tem uma alta taxa de uso de redes sociais, com 144 milhões de usuários em janeiro de 2025.
É justamente essa imensidão de usuários que precisamos contactar, comunicar e, por que não dizer, convencer. Se de um lado há perda substantiva de audiência da mídia tradicional off-line, de outro as gestões públicas ainda tateiam as bordas do mundo digital, procurando adaptar-se à interlocução um-a-um. Inclusive discutindo o regramento restritivo que hoje, por exemplo, diferencia o uso público do privado.
Fato é que, com as redes sociais, os processos de governança ficaram mais expostos e permeáveis à fiscalização dos cidadãos, um fato muito positivo. Hoje, basta um celular com rede 5G, ou wifi público, para mostrar a fila nos postos de saúde e nos hospitais; a escola mal cuidada, a depreciação da pavimentação das cidades e por aí vai...
A questão é que, simultaneamente, também há espaços cada vez mais amplos e generosos para um ativismo que não se importa com a precisão dos dados, a necessidade de dar a informação correta, ou simplesmente não é permeável à prática do bom jornalismo, de ouvir os diferentes lados nas polêmicas e questionamentos. Porque uma coisa é a crítica, própria do regime democrático. Outra, é a manipulação, o achaque e o abismo entre isenção e fato.
Assim, e em especial nos anos de sucessão eleitoral, fica quase impossível responder e esclarecer tudo, a tantos e o tempo todo, cenário em que proliferam as usinas de fake news, sejam elas contratadas com propósito e interesses próprios inconfessáveis, sejam aquelas que alavancam conteúdo errado por mera incapacidade de diferenciar a realidade de mentiras orquestradas. Essas são o repositório preferencial dos que, anonimamente, jogam ao vento as mais diferentes irresponsabilidades, em busca de assassinar reputações, que acabam multiplicadas por parceiros de batalha, mas também pelos manobrados em sua boa fé.
Diante desse quadro geral, é cada vez mais necessário haver maciço investimento na modernização tecnológica para repressão de crimes cibernéticos. Como se sabe, os números do aumento de golpes virtuais, estelionatos digitais e ataques de sequestro de dados são acachapantes. As investidas são diversificadas, desde fraudes eletrônicas que simulam comunicações legítimas para roubo de informações, até programas maliciosos que invadem sistemas e o uso de vídeos e imagens manipulados por inteligência artificial para práticas como abuso infantil. O país tornou-se não apenas alvo, mas também, em alguns casos, ponto de origem de crimes digitais.
Não há como ignorar que esta realidade se adensará também no processo político-eleitoral, com riscos evidentes cada vez maiores de mau uso das ferramentas de inteligência artificial. A ideia de alguma regulamentação das redes precisa superar os limites do campo ideológico, para que seja possível um debate prático, equilibrado e responsável, que garanta a plena liberdade de expressão, mas também proteja os cidadãos e as instituições contra ataques e ofereça instrumentos mais acessíveis para a reposição da verdade e o ressarcimento de vítimas. Esse é um desafio de todos.

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