Brasil e memória

Ano bom para lembrar JK

Com a inspiração e o compromisso de Assis Chateubriand, anunciamos a preparação de uma série de eventos e edições especiais sobre a morte de JK, este ator singular da nossa história cuja estética nos remete, sempre, à proximidade com a virtude

Memória é artigo de luxo. Não cheira a mofo, traz frescor, contextualiza a existência. Para o jornalismo, é essencial. Olhando o calendário eleitoral aprovado pelo TSE e divulgado em março, pensei em quantas eleições acompanhei numa redação. Não há cobertura mais emocionante. É a festa da democracia. E já vai começar. Mais uma vez, tensa e polarizada. Vamos precisar ter cautela, serenidade, discernimento e muita paciência. Nada melhor do que visitar a história para entender o momento e acalmar os ânimos. No fim das contas, independentemente de quem saia vitorioso das urnas, é sempre a democracia que deve vencer. 

Varrendo os arquivos aqui do jornal, com meu amigo Chico Lima Filho, também conhecido como Chiquinho, que sempre encontra preciosidades, achamos duas fotos de Juscelino Kubitschek na redação do Correio. Uma delas é de abril de 1961, assinando a mensagem para a edição comemorativa do 1º aniversário da cidade; a segunda é de maio de 1964, quando JK e dona Sarah visitaram o jornal em um mês crucial de mudança do regime político no Brasil, em plena Guerra Fria no mundo. Fico imaginando que perguntas teria feito para ele naquela ocasião, tão próxima ao seu exílio. Hoje, olhando a foto, pergunto: como conseguia sorrir? Lembro-me da célebre frase dita por Fernanda Torres em Ainda estou aqui: "Nós vamos sorrir". 

No próximo agosto, quando começa a campanha eleitoral de fato, no rádio e na TV, teremos uma data icônica: 50 anos da morte de JK. Meio século desde aquele acidente (em 22 de agosto de 1976) ainda hoje cercado de mistério, com dúvidas e interpretações várias. Acredito que seja um bom ano para nos lembrarmos dele como grande político que foi, desde o seu surgimento no cenário político nos anos 1940/1950. Médico, era meticuloso, cheio de mineirices, mas também de intenso carisma. Soprou um vento de modernidade naquele Brasil — este mesmo país que, às vezes, parece querer cavucar uma parte sombria do passado. Tem tanta coisa melhor para resgatar… 

Que Brasil existia antes de Juscelino e a partir dele? Que Brasil nasceu com Brasília, uma cidade inteiramente levantada do nada, de uma ideia persistente, de um sonho ousado?

Somos parte desse sonho: "Inaugure Brasília e você terá um jornal lá, no primeiro dia". A provocação de Assis Chateaubriand, o visionário fundador dos Diários Associados, era na verdade, também, a semente deste Correio Braziliense — inaugurado no mesmo 21 de abril de 1960 —, título que ele foi buscar, quando era embaixador do Brasil, na Londres de Hipólito da Costa, o primeiro brasileiro dos brasileiros a defender a transferência da capital para o Planalto Central. É com essa inspiração e compromisso que anunciamos a preparação de uma série de eventos e edições especiais sobre a morte de JK, este ator singular da nossa história cuja estética nos remete, sempre, à proximidade com a virtude.

Que Brasil é esse de hoje, tão conflagrado e, ao mesmo tempo, tão rico e dono de uma identidade cultural potente, que encanta o mundo? Para além da política, JK era uma amigo das artes. Deve estar orgulhoso do nosso cinema e um tanto incomodado com o antro que a política se tornou. O ano eleitoral está começando. Devemos mirar no calendário, olhar com lupa todo e qualquer conteúdo para identificar fake news, ter a memória afiada para não esquecer mandos e desmandos e manter a consciência desperta para não desperdiçar voto. Que o espírito moderno e visionário de JK nos inspire!

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