Seleção

Bota meia, Ancelotti: Brasil não pode viver só de pontas e nostalgia

Ideia de Carlo Ancelotti de resgatar o romântico 4-2-4 não é absurda, mas soa anacrônica e perigosa a 75 dias da Copa. Inspirado em 1958, o italiano precisa olhar com carinho para 1994

ESP-2903-OPINI -  (crédito: maurenilson)
ESP-2903-OPINI - (crédito: maurenilson)

Carlo Ancelotti está apegado ao 4-2-4. Acha possível conquistar o hexa dando todo o poder aos pontas, velocistas, nem sempre dribladores ou artilheiros. Não está errado. O italiano de 66 anos mostra conhecimento histórico da Seleção, mas os tempos são outros. O Brasil de Vicente Feola foi campeão assim em 1958. Havia Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Atrás deles, Zito e Didi pensavam o jogo. Aymoré Moreira só não manteve o quarteto no bi, em 1962, porque Pelé se machucou. Amarildo, o Possesso, substituiu o Rei. Os meias eram os mesmos. No tri, a Amarelinha ostentava Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino, mas desfrutava dos maestros Clodoaldo e Gerson.

Os pontas são o que temos de melhor para a Copa de 2026: Vinicius Junior, Raphinha, Estêvao, Luiz Henrique, Gabriel Martinelli... A questão é a falta de imaginação na meiuca. Olhar para Casemiro e Bruno Guimarães como se ambos tivessem a capacidade de emular Zito e Didi ou Clodoaldo e Gerson é blasfêmia. A ideia de Ancelotti não é absurda, mas parece anacrônica a 75 dias da Copa.

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Daí a necessidade de olhar para os outros dois modelos vencedores: 1994 e 2002. Ancelotti precisa conversar com Parreira. O mentor do tetra não teve vergonha de mandar o camisa 10 Raí para o banco e formar um meio de campo operário para trabalhar em função de Bebeto e Romário. Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho carregavam o piano. Havia ocupação do meio de campo. Cadência.

Em vez do 4-2-4, Ancelotti poderia recorrer ao 4-4-2. Não há obrigação de todos os pontas serem titulares. Ele pode emular o Brasil de 1994 montando a meiuca com Fabinho, Casemiro, Danilo (do Botafogo) ou Lucas Paquetá e Bruno Guimarães. Na frente, Vini e Raphinha ou um mais centroavante.

Ancelotti também poderia sentar-se à mesa com Luiz Felipe Scolari para falar sobre o penta — e o 7 x 1. A safra tem bons zagueiros. Por que não adicionar ao repertório sistema tático alternativo no 3-5-2 ou no 3-4-1-2 como no título de 2002? As três torres eram Lúcio, Edmilson e Roque Júnior. O italiano não pode unir Éder Militão, Marquinhos e Gabriel Magalhães; e potencializar alas como Wesley? Ele joga assim na Roma, porém na esquerda. Com tantos pontas, perde a utilidade.

Uma das causas do 7 x 1 nas semifinais da Copa de 2014 foi o apego de Felipão ao 4-3-3. Ele achou que poderia peitar a Alemanha trocando simplesmente o lesionado Neymar por Bernard em vez de fortalecer o meio de campo e ter a humildade de jogar por uma bola. Deschamps havia feito isso nas quartas de final no Maracanã. Foi eliminado, mas entendeu a limitação da França e perdeu por 1 x 0.

O Brasil enfrentou a campeão mundial e a vice no ciclo. A sensação contra as duas seleções foi de déjà vu do 7 x 1. Dorival Júnior configurou o Brasil no 4-2-4 no Monumental de Núñez, perdeu por 4 x 1 e escapou de mais. Ancelotti repetiu na quinta-feira. A França não fez mais do que 2 x 1 porque desacelerou. Abriu 2 x 0 com 10 jogadores depois da expulsão de Upamecano.

Grato, Ancelotti, pela tentativa de resgatar o romântico 4-2-4 de 1958, 1962 e 1970, mas o momento demanda senso de urgência. O Brasil precisa olhar para acertos de 1994 e de 2002. Aprender com o 7 x 1 e até com 2006. A avareza tática causou danos pela insistência com o quadrado mágico formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Adriano.

Encerro com duas lembranças. O técnico do Brasil jogou no histórico Milan de Arrigo Sacchi: Ancelotti, Rijkaard, Colombo e Donadoni trabalhavam duro para Gullit e Van Basten decidirem. Carletto era auxiliar de Sacchi na Copa de 1994. A Itália foi vice com Berti, Dino Baggio, Albertini e Donadoni fazendo o trabalho sujo para Roberto Baggio e Massaro.

Em 1982, Zé da Galera, personagem de Jô Soares, liderou a campanha "bota ponta, Telê". Os novos tempos são de "bota meia, Ancelotti".

 

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MP
postado em 28/03/2026 06:00
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