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Em ano eleitoral, estratégia separa candidatos de figurantes

No tabuleiro do xadrez eleitoral, cada movimento exige cálculo e precisão. Não há espaço para improviso, até os imprevistos precisam ser considerados

MICHEL MEDEIROS, Jornalista, coordenador decomunicação na Câmara Legislativa do Distrito Federal e especialista em comunicação governamental e marketing político

 

Nos próximos dias, chegam ao fim dois prazos decisivos do calendário eleitoral: a janela partidária, que autoriza parlamentares do Legislativo a mudarem de partido sem risco de infidelidade, e a data-limite para desincompatibilização, quando ocupantes de cargos públicos que pretendem disputar o pleito devem deixar seus postos. As regras são estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Por trás dessas datas, que vão muito além de marcos formais, existe uma complexa engenharia. Ao longo de meses, estrategistas se debruçam sobre cenários, cálculos e projeções. Em uma disputa, qualquer passo em falso pode custar caro. Muitas vezes, o mandato.

No Distrito Federal, embora os principais cabeças de chapa já tenham assegurado espaço em legendas, ainda há incerteza. Nomes fortes da política local, especialmente ex-mandatários, seguem em busca da nominata mais competitiva, ampliando as chances de retorno ao Legislativo. Esse cenário deve empurrar decisões para o limite do prazo, transformando o dia 3 de abril em ponto de inflexão. A equação eleitoral está longe de ser simples.

Nos grandes partidos ou federações, o objetivo é maximizar cadeiras. Na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), legendas competitivas costumam conquistar entre três e quatro cadeiras. Para isso, investem em "puxadores de votos", que, no sistema proporcional, além de se elegerem, contribuem para o quociente eleitoral e ampliam as chances dos demais. MDB, PT e PL são especialistas nesse cálculo.

Na outra ponta, estão os partidos menores, "nanicos", muitas vezes reorganizados a cada ciclo eleitoral. Neles, a estratégia é garantir uma ou, no máximo, duas vagas. As nominatas favorecem um candidato competitivo — que, neste ano, terá de ultrapassar os 25 mil votos — enquanto outros nomes ajudam a compor o desempenho coletivo.

Esses candidatos, em geral bem relacionados com lideranças comunitárias ou categorias, dificilmente conquistam vaga, mas valem ouro. Seu capital político contribui para o desempenho da chapa e pode abrir espaço em futuras composições, como secretarias, administrações regionais ou cargos em empresas públicas. Perder não significa, necessariamente, sair derrotado. Quando bem articulados, esses movimentos também ampliam as chances no pleito seguinte. Afinal, na corrida eleitoral, espaço e visibilidade são ativos primordiais.

Mesmo em cenários aparentemente consolidados, qualquer alteração na janela partidária provoca recontagem de forças. A escolha da legenda, que deveria ser estratégica, muitas vezes é guiada por movimentos de última hora. E a apreensão não se restringe a quem pretende mudar de partido.

Na Câmara Legislativa ou no Palácio do Buriti, cada rumor sobre a chegada de um nome de peso a uma sigla gera desconforto. Quem já tem mandato ou aparece bem posicionado teme perder espaço. No sistema proporcional, não basta ser competitivo; é preciso estar bem ranqueado. Ao contrário do futebol, em elencos políticos estrelados, os grandes nem sempre são bem-vindos. Ninguém quer servir de escada para a eleição de um adversário.

Paralelamente, o prazo de desincompatibilização intensifica as movimentações, com todos de olho no Diário Oficial. No DF, uma das saídas mais aguardadas foi a do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB), que deixou o cargo no sábado, dia 28, em meio às comemorações pelos 55 anos de Ceilândia, um dos maiores colégios eleitorais da capital.

Apesar dos movimentos para manter tranquilidade aparente, o céu não está para brigadeiro. A vaga ao Senado, antes dada como praticamente assegurada ao ex-chefe do Executivo, tornou-se incerta. O escândalo envolvendo o Banco Master abalou alianças importantes, como a relação com o PL. No DF, o partido, sob o comando de Bia Kicis, rompeu com Ibaneis e lançou candidatura própria ao Senado, ao lado de Michelle Bolsonaro, que lidera as pesquisas.

O efeito se espalha pela base do emedebista. Secretários e administradores que deixam cargos para disputar as eleições enfrentam maior incerteza. A dúvida sobre o peso político do ex-governador provoca rearranjos nas nominatas e interfere diretamente na dinâmica da janela partidária.

No tabuleiro do xadrez eleitoral, cada movimento exige cálculo e precisão. Não há espaço para improviso, até os imprevistos precisam ser considerados. Em um cenário volátil, a diferença entre vitória e derrota pode estar nos detalhes. Ao fim desses prazos, mais do que definir filiações ou afastamentos, estará em jogo o desenho real das forças que disputarão 2026 — e quem soube jogar melhor com o tempo, a articulação e o risco. Em ano eleitoral, estratégia separa candidatos de figurantes.

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